Power Prime Capitulo 12

 


Capítulo 12

Um Ponto Final


Troy olhou para o teto branco da enfermaria, ainda acordando. Parecia mais distante do que realmente era.


Seu corpo estava fraco, provavelmente por ter passado tempo demais parado. As cicatrizes dos cortes que sofreu durante a luta contra Hendric eram bem visíveis em seu braço esquerdo, mas quanto a situação do direito, que estava completamente enfaixado…


— Quem… venceu? — Ele se perguntou.


***


— Troy enfim acordou.


Na sala de treinamento da VALOR, Jonas, que possuía ataduras pretas enroladas em seus punhos e vestia roupas de treino, falou.


— Já era hora, né — respondeu Erick, terminando de amarrar a faixa em sua mão direita.


— Você já sabia? Não parece estar surpreso.


— Acho que ele não iria dormir pra sempre, não? Ainda mais do jeito que ele é.


— É, você tá certo. Ele é muito cabeça dura pra isso. — Jonas acabou largando um sorriso. A preocupação com a situação do jovem finalmente encontrou um fim. — Os outros garotos ficaram bem felizes. Tentaram fazer uma visita, mas Taron lhes deu um puxão de orelha. Acho que ele tá conversando com Troy nesse exato momento.


— Ele fez bem. O pessoal costuma ter entusiasmo até demais pra uma situação como essa. Notando algo, Jonas não pôde evitar perguntar:


— Erick, há alguma coisa errada? Você parece… distante. Tem algo te incomodando?


— O passado e mais algumas coisas.


— Você não parece querer falar disso.


— Você sabe ler bem as pessoas, Jonas. O homem então ficou em silêncio.


Só que há mais uma coisa. O mestre de Shirago.


— O que tem ele?


— Ele é alguém imprevisível e volátil. Se a infecção sair do controle…


— Infecção?


— Os bestiais. Nenhum deles passava de uma criatura comum, não até ele colocar suas mãos neles. E sabendo o que sabemos agora, temo que isso possa sair de controle.


— Como exatamente?


— Conhece o Lagarto, dos quadrinhos?


— Acha que ele quer sair transformando pessoas em monstros?


— Pra falar a verdade, não penso que seja isso o que ele quer, mas sim o que acabará fazendo.


— Transformando pessoas em monstros por meio de uma infecção…


— Se meros animais comuns tornam-se monstros selvagens, imagine o que essa corrupção faria com um Khaostic — disse ao acabar de pôr as ataduras em suas mãos.


— Erick possuía olhos diferentes para essa situação toda. Olhos que mais ninguém ali tinha. Olhos que colocavam um semblante carregado de preocupação e temor em seu rosto vendo rumo que estava sendo tomado.


****


— Você ficou inconsciente por um mês. — Taron falou.


— Tudo isso? — Rebateu Troy.


— O tempo voa.


O homem, sentado na beirada da cama, ao lado do jovem, olhou em silêncio para o teto, sabendo bem que não demoraria para que o garoto tocasse no assunto.


— Taron... Eu não sinto meu braço direito...


— Eu sei…


O silêncio se fez presente por alguns segundos mais uma vez.


— Moleque burro! Eu falei pra não forçar, caramba! — Berrou o homem largando um tapa na nuca do rapaz.


— Foi mal, foi mal...


Troy conseguiu apenas dar um sorriso sem graça perante a situação, o que fez Taron soltar um longo suspiro.


— Seu braço esquerdo ficará bem logo. Tá com um bocado de cicatrizes, mas é só pra te deixar mais intimidador.


— Tá bom demais para ser verdade, né?


— Seu braço direito teve ferimentos profundos. Tecidos, tendões, nervos e veias foram parcialmente danificados. Perda de movimento é uma possibilidade.


— Ah...


...


— Bom, tudo que poderia ser feito já foi. Só nos resta aguardar até semana que vem. Um médico de verdade é que dará o veredito final.

...


— E como está Hendric? — Troy perguntou.


— Humph… — O homem deixou escapar um pequeno sorriso. O ultan perguntou como se ambos não tivessem quase se matado algumas semanas atrás. — Ele está bem. Está entrando em missões junto dos outros.


— Missões? Que missões?


— Ele e os outros se tornaram agentes aprendizes da VALOR, estão agindo em missões.


— Quê?! Isso quer dizer que eu tô super atrasado!


— Você deveria estar preocupado com outra coisa, tapado! — Taron lhe deu outro tapa. A quietude tomou o ambiente novamente, até que uma questão nasceu na mente de Troy.


— Imagino que eu não vou poder usar o All Control, não é?


— All Control?


— É o nome que eu dei ao meu poder.


— Ah... Sobre isso... Você está terminantemente proibido de usar sua habilidade! Até segunda ordem.


— Hã?


— Você não será privado da sua habilidade para sempre, se é o que pensou. Só ficará sem usá-lo até que a situação de seu braço seja resolvida.


— É sério?


— Mas se você fizer uma besteira dessas de novo, eu te jogo fora! — Taron se segurou para não dar outro tabefe no garoto.


Passou-se uma semana. Troy recebeu várias visitas nesse meio tempo. E então chegou o dia.


Sentado em uma maca, com ambos os braços enfaixados, ele aguardava o médico após uma longa bateria de exames.


Taron também estava ali, sentado em uma poltrona com as mãos atrás da cabeça.


— Está nervoso? — Ele perguntou.


— Um pouco…


Após um momento de silêncio, enquanto encarava o teto sem desviar o olhar, ele disse:


— Aconteça o que acontecer, prometo que vou dar um jeito de recuperar sua condição.


O homem sabia o tamanho do peso que aquela situação colocava nos ombros de Troy. Força significava muito para ele, não por superioridade mas justamente para não se sentir inútil, para não decepcionar aqueles que perdeu e para não ter que perder mais ninguém. Perder um braço em uma das primeiras vezes que usou seus poderes… Taron não sabia bem ao certo como o garoto lidaria com isso.


— Não deve ser fácil… — Rebateu o jovem.


Por outro lado, Troy desejava apenas uma coisa: continuar. Tudo isso era um baque, de fato, forte, porém se tratava de uma consequência do caminho que escolheu. Nunca poderia haver tempo para se lamentar ou se arrepender. Para ele, acontecendo o que fosse para acontecer, o que importava era apenas quando poderia começar a participar de missões e treinar suas habilidades.


— Se fosse, não teria graça — O homem finalizou.


A porta do laboratório se abriu e uma mulher entrou. Ela colocou alguns papéis em uma mesa e checou algumas informações em seu computador. Troy e Taron se ajeitaram aguardando com antecipação as palavras da mulher.


— Acho… — começou a falar a doutora — que devemos ir direto ao ponto. A situação não é boa, por mais que pudesse ser bem pior. A maior parte do seu braço foi reconstruída, porém, em decorrência dos danos mais graves, infelizmente haverá… complicações. Ações simples como abrir e fechar a mão serão bem mais difíceis, atrasos nas respostas a comandos, espasmos e tremedeiras, essas são algumas das consequências que surgirão. Com o tempo, principalmente se você forçar, a situação pode piorar. Apesar de tudo, não é uma perda completa.


Troy logo recebeu alta com alguns muitos avisos e recomendações médicas. Ele e Taron estavam andando pelos corredores.


— Olha, achei que seria bem pior. — Troy falou soltando um longo suspiro, o qual carregava um bocado de alívio.


— Nem me fale.


Taron compartilhava do mesmo sentimento do rapaz.


— Eu irei sair da base, devo voltar em alguns dias.


— É uma missão?


— Sim, uma muito importante.


— Essa é novidade... — Troy riu.


— Por quê?


— Você é um fornecedor de armas para a VALOR, além de um agente, mas você não costuma sair em missões importantes, a não ser que seja emergência ou não haja pessoal.


— Humph, essa não é uma missão de campo, mas é importante. E mesmo que fosse, eu participaria! Você deve ter voltado a perder as memórias para não se lembrar das inúmeras missões em que eu fui!


Ah, as memórias que sumiam com seus recorrentes sonhos... Pensando bem, eles já não aconteciam desde a primeira vez que o All Control foi usado…


— Eu… não te contei... Mas… Shirago voltou a agir nesse mês em que você esteve inconsciente.


— Shirago...


Tudo o que aquele homem fez passou por sua mente. Os bestiais, as mortes, a destruição, os avisos e as ameaças… Era de se imaginar que ele não ficaria parado nesse mês em que Troy ficou desacordado.


— Duas semanas atrás, ele e mais duas pessoas atacaram uma prisão russa e sequestraram o cientista Dimitri Evanoff. Essa era uma prisão renomada com segurança top de linha. Os guardas relataram que bestiais surgiram dentro e fora prédio. Muitos corpos drenados e dilacerados, um total de 21 guardas mortos e 19 desaparecidos. 94 presos mortos e 107 desaparecidos.


— Desapareceram mais de 120 pessoas?


— Logo depois dos bestiais aparecerem. Eles simplesmente sumiram, sem rastros, sem corpos.


— Humm...


— O objetivo deles era Dimitri, pois o pegaram e logo saíram. Acontece que esse cara conduzia experimentos de mutação genética em cobaias humanas, e por isso foi preso.


— Por que Shirago iria querer um cientista louco ao seu lado?


— Acontece que provavelmente Shirago e seu bando trabalham com mutações genéticas pesadas.


— Fala mais.


— Lembra dos bestiais? Depois daquela batalha, eles misteriosamente se transformaram em animais comuns. Analisando esses animais, encontramos traços de diversos DNAs, de vários tipos de animais e também humano. Além de várias substâncias químicas.


— Que coisa mal explicada...


— Pois é… Ei, essa é minha parada.


Caminhando, eles chegaram à uma bifurcação na qual o caminho da direita levava ao saguão principal.


— Ok, então eu te vejo em alguns dias.


— Vê se toma cuidado. Essas ataduras ajudam na recuperação externa e interna dos seus braços, então as mantenha por mais um tempo. E pelo amor de um bom Deus, não inventa de fazer nenhuma outra idiotice.


— Ok, ok, tiozão.


— Tá, tá. É só um aviso amigável — falou já de saída. — Tô confiando em você, garoto! Até mais!


— Até!


— Opa! Opa, opa, opa! Quase me esqueci!


Taron pegou algo em seu bolso e jogou para Troy.


— Um cartão de acesso? — O jovem deu uma rápido verificada no objeto.


— Eu deixei com você um antigo que era meu, mas o peguei de volta naquela sua invasão. Bom, fique feliz, agora você tem seu próprio!


— Próprio? Isso quer dizer que...


— Bem-vindo a VALOR, agente.


— Adorei. — Troy gargalhou de alegria.


— Ah, esse cartão é nível 1, então você não pode entrar em muitos lugares. Troy inspecionou o cartão por um momento.


— Espera... Eu posso entrar em todos esses lugares mesmo sem cartão!


— Ahahaha! Vai ter que ralar muito, moleque! — Taron se retirou antes que ele pudesse dizer mais algo.


Entretanto, mais uma vez olhando o cartão, Troy se sentiu satisfeito. Havia conseguido. Ele era um agente, afinal!


No dia seguinte, Troy estava lá, embaixo da árvore.


Por causa do seu coma, ele não pôde a visitar por um longo tempo, mas agora, ele finalmente veio.


A manhã estava calma e tranquila. O vento soprava serenamente. As folhas belas e verdes farfalhavam e a luz do sol batia contra as lápides.


Era aqui que ele encontrava paz, porque as memórias das pessoas que lhe confortavam estavam ali.


Sentado na grama com as costas encostadas no tronco da árvore, Troy encarou sua mão direita.


"Eu não sou inútil! E nem vou ser!"


****


Mais tarde, na sala de treinamento.


O jovem atingiu o saco de pancadas com um soco de esquerda, mas no fim das contas, a médica estava certa em seus avisos, seu braço ainda não estava recuperado.


Troy se ajoelhou sentindo uma forte dor em seu pulso e antebraço. Mas ele se ergueu, apertou seu punho e cerrou os dentes, acertando mais uma vez.


E o fez mais uma vez, e outra e mais outra, porém, ao invés de golpear o saco, o que ele atingiu foram suas próprias costas.


— Um portal...


Um portal à sua frente pelo qual seu punho entrou e outro atrás onde foi atingido.


— Socar algo com um braço acabado não é efetivo, muito menos inteligente.


— Usar meu punho contra mim mesmo que não é... Hannah.


A garota, que havia acabado de chegar, se sentou na escadaria da entrada.


— O que faz aqui? — O rapaz perguntou.


— Taron me deu a grande missão de ficar de olho em você.


— Quê? Ele disse que iria confiar em mim!


— Há alguém em sã consciência que confiaria em você?


— Ai…


A moça sorriu em resposta


"Cuide de minha filha..."


Adam, aquele grandalhão imponente, ordenou que Troy cuidasse de sua filha, ameaçou na verdade. Por que, ele se perguntava. Talvez o Mordock estivesse desesperado, ou talvez pensasse que o garoto havia se tornado alguém parecido com Taron. Quem sabe? Poderia simplesmente achar que ele seria um bom amigo, um que ele sabia que sua filha precisava.


— Acho que te devo desculpas — disse o rapaz.


— Pelo quê?


— Sabe, eu meio que caí de paraquedas nisso tudo. Ainda estou aprendendo muitas coisas e agora tem essa complicação do meu braço, mas agora eu entendo. Eu imagino quantos não podem usar seus poderes, mas nós podemos, pois somos protegidos pela VALOR. O suficiente nunca é o bastante.


— Pelo menos sabe reconhecer seus erros.


Troy apenas largou um sorriso de canto. Aquela garota não era fácil.


— Por que você está treinando? Pode se machucar ainda mais


— Não quero ficar parado. Eu não espero me recuperar completamente, mas não vou me abalar! Eu vou treinar, e vou ficar mais forte! Eu não posso contar com o All Control, ele pode acabar comigo já que eu não sei controlá-lo corretamente.


...


— Ah, Hannah... tem algo que eu quero saber desde que eu te vi usar seu poder pela primeira vez!

Você quer saber...


— Quantos portais você pode abrir ao mesmo tempo?!


— Quê?!


— Por mais que dependa da funcionalidade do seu poder, se você criasse 100 portais, com um deles sendo a entrada e outros 99 saídas, e jogasse um tijolo naquele um, ele sairia pelos 99 ou só por um?


— Eu sei lá!


— Eu comecei a pensar nisso, mas não chego em uma resposta!


— Maníaco!


— Eu tenho uma missão, que foi dada a mim por meu pai antes de morrer, e para a cumprir eu preciso de conhecimento, todo conhecimento, incluindo sobre os Poderes do Khaos.


— Que missão?


— Ah... Eu não sei...


— Como assim...?


— Ele só me disse que eu deveria honrar o sacrifício do meu povo e da minha família. Mas entre os diversos ditados do meu povo, havia um que dizia que uma vida ser dada por outra é o mesmo que assinar um contrato. A pessoa salva ganha uma missão, mesmo que seja sobre somente sobreviver, ela deve isso à outra pessoa.


— É… um ditado até que bonito.


— Ah... mas e você?


— O quê?


— Eu quero ficar forte, quero lutar pelos outros, mas acima de tudo... Eu jamais quero voltar a me sentir inútil! Mas... e então? Qual é o seu objetivo?


— Eu quero me tornar um símbolo! — Hannah respondeu de imediato.


— Símbolo?


— É. Quero inspirar as pessoas, quero que olhem pra mim e vejam... esperança.


— É um sonho bem bonito.


— Todos precisam de ajuda, mas não há como ajudar todos. Um símbolo de força, de esperança, pode inspirá-los, dar a eles a força que necessitam para lutar, para resistir.


— Meu pai era assim para quase todos do meu povo… Por mais que eu não o visse dessa forma, todos inspiravam-se em sua grande força e imponência.


— Então, como você o via?


— Como um homem tentando. A vida foi dura comigo, mas também com ele. No fim, ele disse palavras que eu precisava ouvir, acho que é isso que importa.


— Então você o vê como um pai. O jovem sorriu.


— Você já fala como um símbolo, Hannah.


Mais uma vez, Troy atingiu o saco de pancadas.


— Por mais que seja bom você ter tamanha garra, usar esse braço agora é bem prejudicial.


— Não importa. Tudo que eu tenho que fazer é continuar.


Ele iria bater de novo, mas foi impedido quando um portal se abriu.


— Eu fui posta como sua babá, então, se você se ferir, isso vai pesar no meu currículo. Troy, pensando em algo, estendeu a mão sobre o portal.


"Realmente, causar interferência em um Poder do Khaos não é simples."


Não demorou para que Hannah fechasse a fenda.


— Se você quer treinar, encontre uma forma mais efetiva e menos dolorosa, descansar por mais tempo também seria bom.


— Eu já descansei por tempo demais. Preciso continuar. O saco de pancadas foi novamente esmurrado.


— É só isso. Não vou ficar para trás, não vou aceitar que é inútil e irracional, não vou desistir! Como contra os bestiais, contra você, contra Erick e até Hendric. Eu estava pronto. Pronto para lutar. Mesmo que eu me machucasse, me quebrasse, eu sabia que ia continuar lutando até que meu corpo já não se movesse.


...


— Quase custou um braço, mas fazer o que? Riscos devem ser reconhecidos e assumidos. Ah, como eu adoro essa frase!


Ele atingiu o saco de pancadas de novo.


— Mas eu não sou idiota, sei que posso piorar minha situação.


— Mas você não vai parar, não é?


— Não, isso não faz meu estilo.


— Você não passa de um cabeça dura.


— Bom, não se preocupe... Ele o atingiu novamente.


— Aaaaaiiii!


— Idiota!


Assim como avisado, forçar seu braço fez com que os ferimentos dessem, e muito, o que fez com que Hannah o expulsasse da sala de treinamento e então, Troy optou por ir descansar


No caminho para os dormitórios, o rapaz fez um desvio para o refeitório, onde bem se alimentou, pegou algo para mais tarde e voltou a caminhar, porém, logo trombou com alguém.


— Ah… Hendric. — Troy o cumprimentou.


— Haron.


O jovem Hayward o cumprimentou de forma tranquila, algo que o ultan sinceramente não esperava. O encontro, apesar de inesperado, pareceu ser a chance perfeita para pôr um ponto final naquela situação.


— Hendric. Aceita uma conversa?


Sentados nas arquibancadas da arena onde um mês atrás quase mataram um ao outro, agora eles observavam o pôr do sol pelo grande teto retrátil do local.


— É belíssimo, né? — Troy via uma beleza quase divina no fenômeno solar, sempre o deixava admirado.


— Sim. — Por mais que Hendric não dissesse, também ficava impressionado com a visão.


— O sangue dos Khaostic… Acho que agora entendo porque eu, dentre todos, consegui ser odiado por você. Não é apenas sobre possuir poder. Preço, responsabilidade, consequências. Aposto que você passou por muita coisa, deve ter te irritado ver alguém que-


— Não — interrompeu Hendric. — Eu estava errado. Troy ficou surpreso ao ouvir as palavras do rapaz.


— Achei que você soubesse apenas falar, que estivesse aqui por sorte, que estava vivo porque nunca enfrentou um desafio real ou, se fosse o caso, que o acaso havia te salvado. Mas você me enfrentou, e quase me matou. Não sei se isso vale algo para você, Haron, mas tem meu respeito.


— Vale… e muito. Aliás, Haron… Esse sobrenome é inventado, eu não tinha um e achei que precisava ter.


— Não importa, certo?


— Não, eu acho que não.


— E então? Como estão seus ferimentos?


— O braço esquerdo está quase recuperado das fraturas e os ferimentos pequenos já sumiram, ou seja, vão ficar boas cicatrizes. O direito… é um pouco mais complicado. Você deveria se sentir mal por mim.


— Eu diria que estamos quites. — Hendric levantou a manga de seu braço direito, revelando três cicatrizes que subiam de sua mão até o ombro.


— Que coisa horrível! Você tá certo. Estamos realmente quites.


...


— Mesmo que não seja hoje, nem amanhã, não vou deixar você se afundar em sangue. Vamos mudar as coisas, Hendric. Precisamos mudar. Pelos sofreram, pelos que sofrem, e para que ninguém mais sofra. — Troy passou a observar o pôr do sol com convicção.


— Um passado de sangue… Mas um futuro distinto. — O jovem Hayward lembrou-se das palavras de Ayro enquanto se colocava de pé. — É um bom desejo.


— Olha aí! — Troy esboçou um grande sorriso. — Você também consegue sentir esperança!


— Até mais, Haron — disse de saída.


— Você também tem meu respeito, Hendric!


A figura do rapaz logo sumiu de sua visão, mas Troy continuou a sorrir. Um ponto final fora colocado. Um de muitos.