Fantasma Sombrio Capítulo 28

 


Capítulo 28

Morte esteve aqui


Quando o dia estava prestes a cair, em devaneios de tristeza, Lana caminhava devagar pela estreita rua, onde também percorria uma friagem de arrepiar as espinhas.


Parou em frente a uma casa e fitou-a, pensativa. Fazia tempo que não passava por ali, em frente a casa de Iuri. Era o lugar em que viera várias vezes, porém nunca o chamara por causa da vergonha, e no dia que ela finalmente ia ter coragem, foi no primeiro dia de aula deste ano, no mesmo em que também encontrou Saketsu e foi atacada por Iuri; o mesmo dia em que tudo começou a mudar…


Não sabia mais o que fazer, havia acabado de ir embora da casa de Saketsu, brigado com ele, depois de o ver beijando uma garota atrás da escola. Não sabia direito o porquê, mas aquilo havia a deixado muito mal, culpara Saketsu sem pensar, mas agora era tarde demais para voltar atrás, não tinha nem coragem de atender o celular que vibrou várias vezes com a ligação dele.


Estava perdida, era como se no mundo não existisse lugar para si, e não importava o quanto tentasse ser feliz, fazer as coisas direito para isso, a decepção sempre viria.


Ainda parada olhando para a casa vazia de Iuri, se perguntava onde ele estaria, para onde ele havia ido depois de perder tudo? Será que estava bem?


Lana sentiu um aperto frio no peito, estava prestes a se afogar em lágrimas novamente. De repente, porém, percebeu o celular tremer. Pensou que fosse Saketsu a ligando de novo, contudo não era, era seu pai que havia mandado uma mensagem que dizia o seguinte:


“Olá querida, sou eu, o papai, estou de volta. Você ainda irá demorar para chegar? Espero que você veja esta mensagem antes da hora da janta, para que assim possamos comer juntos e botar a conversa em dia. Estou com saudades da minha filha.”


Isso surpreendeu a garota, as lágrimas agora eram de felicidade, depois de muito tempo finalmente iria vê-lo!


Às pressas, Lana começou a seguir rumo para a casa, não vendo a hora de chegar para poder dar um forte abraço em seu pai para compensar a grande ausência dele nos últimos tempos, ele era a única pessoa com quem de fato poderia contar no momento.


Quando finalmente chegou em casa minutos depois, estava até com a respiração ofegante. Ainda do lado de fora, notava que estava tudo escuro e silencioso, com um ar melancólico de sempre, ela achou estranho.


“Será que ele saiu?”, se perguntou quando entrava pela sala, acendendo a luz. Pôs suas coisas no sofá e caminhou para o corredor. A quietude despertava uma sensação ruim à medida em que permanecia ali.


Logo, sentiu um cheiro estranho, pouco identificável, parecendo estar vindo da cozinha no fim do pequeno corredor, lembrando de alguma forma carne estragada.


Ao se aproximar o cheiro se intensificou ainda mais. A porta estava entreaberta, seguia com cautela pois sentia que tinha alguma coisa errada ali. Ao abrir um pouco mais a porta, ligou a luz e entrou na cozinha.


À primeira vista parecia estar tudo bem, porém uma expressão de negativa surpresa surgiu em seu rosto ao olhar para o outro canto.


Seu estômago até se embrulhou enquanto seu corpo paralisou. Aquilo era horripilante demais, nunca havia ficado tão perplexa. Tapou a boca com as mãos e suas pernas perderam as forças, a levando cair sentada para trás no chão.


Sim, seu pai finalmente estava em casa, mas estava sendo totalmente diferente do que havia imaginado que seria quando o encontrasse.


Desacordado com a cabeça pendida para baixo, sentado entre a parede e o chão sobre a poça do próprio sangue que vazava das suas pernas que haviam sido decepadas a partir dos joelhos, cujo os ossos estavam fincados um em cada mão dos braços esticados para os lados na parede, com tripas tiradas do seu abdômen aberto enroladas como enfeites pelo corpo, o homem estava morto, e, como se não bastasse, acima de sua cabeça havia a seguinte mensagem escrita com seu sangue: “Morte esteve aqui”.


Mesmo que quisesse, Lana não conseguia tirar os olhos carregados de pânico daquela vista tão cruel e assustadora.


Quem teria cometido um ato tão desumano assim?


Mesmo quando conseguiu ocultar sua visão ao tapar o rosto com as mãos, a imagem ainda continuava nítida em sua mente.


Ainda não acreditava, queria acordar logo caso fosse um pesadelo.


Finalmente juntou forças e se levantou. Não queria ficar ali nem mais por um segundo, queria ignorar tudo, só queria fugir. Então saiu às pressas dali.


A noite já havia dominado o céu. Lana corria deixando lágrimas para trás. Estava desesperada. Não sabia mais para onde ir. Poderia voltar para a casa de Saketsu ou da sra. Gardênia, mas não queria, não enquanto essa “maldição” de afastar todos que ama permanecesse.


Por que isso acontecia? Por que não poderia ser uma pessoa feliz como todos à sua volta? Já havia abraçado seu verdadeiro eu, matado a velha Lana para dar espaço a uma nova, mas por que as coisas continuavam não dando certo?


Ainda correndo enquanto era tomada por um desespero interno, só conseguiu voltar para a realidade à volta quando sentiu algo a segurar pelos ombros, e, ao reparar, viu que era ninguém menos que Dracarys.


— Ei, você está bem... hum... Lana? — perguntou ainda parado de frente, com suas mãos em cada lado do ombro dela, esboçando uma estranha preocupação.


Lana se desvencilhou dele rapidamente e recuou um passo, limpando as lágrimas para esconder o choro.


— Nada — respondeu ela secamente, não conseguindo disfarçar sua voz embargada. Se moveu para passar por ele e seguir sua direção, mas logo sentiu seu pulso ser segurado — Por favor, me solte... — pediu, virando um pouco para olhá-lo.


— Eu não posso deixar uma linda garota como você andar por aí sozinha enquanto chora.


— Eu estou bem…


— Por acaso, está indo para a casa do Saketsu agora? — perguntou direto ao ponto.


— Não... eu... eu briguei com ele... — Lana ressentiu, desviando o olhar para baixo.


— Nossa, jura? Que chato — tentou fingir empatia, mas Lana percebeu que no fundo ele havia gostado do que tinha acontecido. — E vai para onde agora? Se me permitir saber.


Eu... — Lana queria responder, mas não era nem capaz de mentir um lugar para o onde pudesse ir, afinal achava que não existia um. No momento só queria se livrar do rapaz que a segurava, preferia estar sozinha do que com ele, sabia o tipo de pessoa que ele era.


— Bom, sei que possivelmente você não gosta de mim, pois acho que Saketsu deve ter feito minha caveira, mas, se quiser, podemos dar uma volta juntos. Não estou te obrigando — reforçou apressado, a soltando e demonstrando que não tinha intenções ocultas.


Lana pensou bem. Dracarys não parecia ser uma pessoa tão ruim, pelo contrário, sempre o viu sendo muito gentil com as garotas na escola, além de que ele nunca fez nada diretamente contra ela. Não possuía razão para odiá-lo, então, por que mesmo estava o evitando?


— Tudo bem — aceitou, tentando sorrir para parecer mais simpática.


Alguns momentos se passaram, no meio disso, sentados em um banco de uma praça movimentada, Lana contara para o que acontecera em sua casa, e Dracarys expressou seus pêsames.


Minutos depois, pinicando um algodão doce enquanto observava cegamente algumas crianças brincando sob a vigilância dos país, Lana permanecia no banco enquanto Dracarys havia saído por um instante.


— Pronto, liguei para a polícia. Eles disseram que irão averiguar a situação em sua casa — disse Dracarys, voltando com seu celular em mão. Sentou-se ao lado de Lana e, olhando para ela, perguntou: — Você está melhor?


— Estou — respondeu olhando-o de volta, com um leve sorriso, porém era claro que ela estava longe do que ela dizia estar.


— Se quiser, você pode dormir em minha casa, esta noite — convidou após alguns instantes, quando olhavam para as pessoas passando.


Lana não respondeu, então, sem conseguir mais conter, lágrimas começaram a sair de seus olhos.


— Por que essas coisas acontecem comigo? — perguntou com a cabeça baixa, as lágrimas escorrendo incessantes.


— A vida é cruel para algumas pessoas — disse Dracarys, pegando uma das mãos de Lana com suas duas para aquecê-la. — Eu acho que a humanidade é como dois lados de uma moeda: umas pessoas nascem para serem felizes e outras, para serem tristes.


Lana olhou-o.


— Mas por que comigo? Por que, entre tantas pessoas que são felizes à minha volta, eu tenho que ser a única que a “Vida” tenta prejudicar?


— Eu não acho que seja bem assim. A vida é feita de momentos bons e ruins. Mesmo que a sua pareça ser só de momentos ruins, não deixa de ser os seus momentos, você apenas não está sabendo tornar o ruim em bom, não deve estar sabendo aproveitar.


— Mas como eu poderia fazer isso?


— Não é uma coisa fácil, mas uma forma de lidar com a parte ruim, seria deixar um pouco sua humanidade de lado e viver pelo prazer. Sabe, algumas pessoas acham que a felicidade só está nas coisas que a “sociedade julga como boas”, e eu acho isso muita ingenuidade. Não, eu vejo mais como uma barreira. O importante é você gostar do que faz, ter liberdade para viver como quiser, tacar o verdadeiro “foda-se”, sabe? A verdadeira felicidade está nisso.


— Hum... — Lana estava meio confusa.


— Resumindo: você precisa se apegar a coisas diferentes, experimentar coisas novas, coisas que antes você julgava sem ao menos conhecer, mudar sua essência, até encontrar o que te faz feliz. Não adianta você querer ser feliz com as mesmas coisas que fazem as outras pessoas felizes, cada um é diferente.


— Nossa, agora eu nem sei o que poderia fazer para tentar descobrir uma nova felicidade… — Lana deu um pequeno sorriso.


Dracarys aproximava seu rosto sutilmente do dela, respondendo em um tom mais baixo e intenso:


— Bom, eu tenho uma sugestão, que tal você começar deixando sua humanidade, seus sentimentos, seus julgamentos, um pouco de lado para ver como é? Eu posso te ajudar com isso… — Dracarys levou sua mão calmamente sob o queixo dela, aproximando mais seus rostos. — Eu só preciso saber se você quer ou não.


Lana olhava-o nos olhos, pensativa. Poder se livrar de tudo e ter uma chance de recomeçar, desta vez com coisas diferentes? Na situação em que estava, parecia ser uma oferta inegável. Não demorou para se decidir.


— Eu quero.


Dracarys então se aproximou para dar um beijo e Lana se entregou, fechando os olhos, sentindo em seguida seus lábios sendo tocados pelos dele. Não demorou para sentir um efeito esquisito e confortante preencher todo seu corpo, uma energia que extinguia as sensações aflitas que habitava em si. Começava a se sentir bem, empoderada, excitada…


Tais sensações a fizeram se entregar de corpo e alma, não existiam mais preocupações, nada mais importava, e mesmo se surgisse algum obstáculo, seria insignificante diante à percepção que estava tendo da sua nova grande presença.


A sensação era tão prazerosa, que se deixou ser guiada por ela, tanto que minutos depois, estava caindo na cama com Dracarys.


Era uma agarração intensa e esplendorosa, que os faziam tirar cada vez mais a roupa enquanto os beijos tocavam várias partes do corpo um do outro.


Deitados, Lana logo parou por cima dele, extasiada.


— Eu nunca... me senti tão bem — ela aproveitava para recuperar um pouco do fôlego.


— Isso é só a porta de entrada — Dracarys sorriu com malícia. E se voltaram para o beijo.


Finalmente Lana estava vivenciando um sentimento que sempre buscou, mesmo que antes não conseguisse definir o que era. Não estava se importando com mais nada, exceto em usufruir da sensação tão maravilhosa. Saketsu, Iuri; amizade, amor e coisas do gênero? A Lana burra que valorizava tudo isso havia sumido, seu corpo agora era de outra pessoa que iria tornar esta a sua melhor noite, com um homem tão lindo e gostoso como Dracarys.


Apostava que várias garotas fariam de tudo para estar no lugar dela neste momento, até mesmo se matariam por causa disso. Se elas os vissem juntos, morreriam de inveja.


Mas o que estava pensando? Teria tantos momentos para isso, para as pessoas verem o quão superior Lana havia se tornado, não queria se importar com ninguém no momento, a não ser com Dracarys, que mostrou o caminho da verdadeira luz para a felicidade.


Tinha que no mínimo fazer a noite valer a pena para compensá-lo.