Fantasma Sombrio Capítulo 27


Capítulo 27

Fantasma Sombrio contra o vingador


Dalton já estava com o dedo no gatilho, porém hesitava antes de dar o tiro decisivo. Saketsu olhou disfarçadamente para uma das mãos erguidas à altura da cabeça e deslizou o dedo pela tela do celular, atendendo a chamada que estava recebendo.


"E aí cara, que foi? Tem um monte de ligação sua aqui" disse a voz de Tales. "Sake? Tá aí, cara? Oh... ". Saketsu não dizia nada, apenas fechou os olhos e respirou fundo, esperando o inevitável.


Então houve um forte som estridente. Quando Saketsu abriu os olhos, viu Ukyi com um dos braços transformados se forçando contra, o que antes era um rifle, agora um escudo segurado por Dalton.


 És isso, esta arma és uma arma sobrenatural — disse Ukyi.


 Sim. Eu a chamo de Metalmorfose, capaz de assumir qualquer forma, e foi algo me dado por Deus. — A coisa assumiu um estado gelatinoso metálico e se tornou uma lâmina, que possibilitou Dalton de fazer um movimento que forçou Ukyi a recuar para próximo de Saketsu para não ser atingido, e após fez voltar a ser um rifle novamente.


 Saketsu, eu irei segurá-lo. Fujas, sobreviva a qualquer custo — ordenou Ukyi.


 Eu não posso… Ukyi não compreendeu.


 Meu destino é morrer, uma bruxa me contou isso, meu fim está próximo.


 E tu irás se entregar sem nem resistir? Não sejas tolo. 


As palavras fez Saketsu relembrar:


 É, eu não posso partir, não ainda, Dracarys ainda está solto por aí, tenho que resistir o máximo que eu puder até eu acabar com ele, enquanto ainda estou tendo chance, e se você ficar no meu caminho irei te matar também! — o garoto ameaçou Dalton.


 Eu já disse para tu fugir. Comparando o nível de vocês dois, eu consigo ver claramente quem venceria. Fugir seria a opção mais viável para tu.


 Mas como vou fazer isso? Mesmo que eu consiga tem um monte de policiais atrás de mim, eu não vou chegar tão longe.


 Sem fazer nada é que de fato não vais conseguir. Pule para os outros prédios e continue avançando até onde puder.


Saketsu suspirou.


 Certo, mas, cara, como eu vou pular daqui com este corpo? — Saketsu olhava e via que só tinha um prédio mais próximo, e a distância deste para o outro era de pelo menos sete metros, não daria, pelo menos não sem estar em seu modo glasbhuk.


 Já acabaram a conversa? Minha arma está apontada para você, se mover mais um passo eu atiro — dizia Dalton, ameaçador. — Desista, Saketsu.


Saketsu olhou-o e, quando menos esperou, sentiu um forte impacto contra seu corpo no mesmo instante em que viu o disparo vindo, sendo empurrado em direção ao outro prédio, onde rolou e rapidamente se levantou, dolorido.


Ao olhar para onde estava, viu Ukyi parado com seu braço ainda transformado em lâmina, só que tinha algo diferente desta vez, visto que grande parte dela estava trincada.


Era claro que aquela arma do Dalton dava tiros muito mais intensos do que o normal, ainda mais se tratando de uma coisa sobrenatural, e era claro também que Ukyi não conseguiria dar conta de defender mais uma única coisa sequer daquelas.


 Que estás fazendo, Saketsu? Vás — mandou Ukyi, mantendo sua neutralidade, mas pela primeira vez Saketsu percebeu que ele sentia algum tipo de dor.


Ukyi avançou com uma sequência de cortes, e Dalton se ocupou para desviar, era a oportunidade perfeita para Saketsu fugir, e assim o fez.


Não queria deixar o companheiro, mas se foi o próprio Ukyi que sugeriu, apenas confiaria, nunca teve motivos para não fazer isso. Sabia que tudo ficaria bem, que Ukyi não iria se sacrificar como estava parecendo ser, o conhecia o bastante para saber que ele não era tão bondoso e altruísta a esse ponto.


Dando o máximo de si para fugir enquanto ouvia repetidas batidas de lâminas às suas costas, Saketsu começou a pular por cima dos prédios, cada salto um verdadeiro desafio, chegando a cair, a rolar e até ralar algumas partes do corpo, mas não podia parar.


"O que está havendo aí, Saketsu?!" perguntou Tales pelo telefone, havia se esquecido que estava em chamada com ele, que pelo jeito tinha ouvido tudo até ali.


Saketsu parou para falar.


 Tales, por favor, avise a alguém que estou em apuros, eu estou a ponto de morrer, cara…


“Como assim?"


Abafados pela distância, os sons das lâminas se enfrentando ainda continuavam, e quando tudo pausou, Saketsu se virou para olhar, porém não conseguiu ver nada, já que a parte do prédio onde a luta ocorria estava fora do seu ponto de vista.


Quando ia se perguntar quem havia ganhado, a resposta surgiu. A uns quarenta metros de distância, Dalton apontava seu rifle para o garoto, e antes que ele pudesse pensar em reagir, recebeu um tiro bem no lado esquerdo do ombro, arrancando fora o braço, o mesmo que segurava o celular que caiu rolando pelo chão.


Saketsu colocou a outra mão para tapar o ferimento, mas não era o suficiente para fazer o sangramento parar.


Era uma dor aguda insuportável, como se queimasse muito. Enquanto recuava cambaleando para trás, não tirava os olhos de Dalton que permanecia no mesmo lugar, com seu semblante frio de sempre, mantendo sua arma apontada.


A visão começava a turvar. O foco lutava em tentar fugir e sua força parecia se esvair rapidamente.


Só conseguia ver a silhueta embaçada do homem e de sua arma. Não podia morrer ali, não depois de Ukyi ter dado tudo de si para protegê-lo.


Então percebeu um forte tiro o atingindo, notando no outro instante que tinha pegado seu outro ombro, levando embora o outro braço.


A dor passou a não fazer tanta diferença, só o medo que ainda se mantinha, era assustador se ver nesse estado, mas até isso passou a começar a ser cada vez mais indiferente.


 Droga, a única coisa que… eu quis… foi… viver… uma vida normal. Queria ser como os outros, mas… nunca adiantou…


Ele vomitou uma grande quantidade de sangue e começou a perder o fôlego.


 Nunca adiantou… eu negar minha realidade. Foi só esforço jogado fora…


Ao dar vários passos para trás, finalmente parou, de alguma forma sabendo que estava bem na beirada, bastando dar apenas mais um para cair prédio abaixo, de uma altura que com certeza resultaria em morte.


 O céu é tão… bonito — vislumbrou enquanto olhava para cima, vendo o fraco laranja contrastando com a escuridão. Neste momento parecia que uma parte contemplativa havia despertado em si, reparando em coisas que nunca antes dera a mínima importância.


Então recebeu mais um tiro, e outro, e outro, e outro, e outro, gerando um buraco grande em sua coxa, três em seu torso e um que arrancou pedaço do canto de sua cabeça fora, o fazendo por fim cair para trás.


“Nunca adiantou eu negar minha realidade…”


“Eu queria ter tido uma vida normal como os outros… Mas agora entendo que todo mundo é diferente…”


“Eu devia ter aceitado primeiro todas as circunstâncias da minha vida antes de ter tentado construir uma nova…”


“Eu devia ter feito o que pudesse com aquilo que a vida fez de mim…”


“Eu devia ter abraçado quem eu sou… Eu devia ter tomado o meu poder…” “Eu devia ter me aceitado…”


“...”


A arma de Dalton desfez sua forma de maneira gelatinosa, entrando para dentro de seu terno, quando havia pisado no terraço que Saketsu estava antes, indo até a beirada de onde ele havia acabado de cair.


Finalmente havia conseguido dar fim no glasbhuk, mas isso não o fazia esboçar nem uma pequena satisfação.


Quando chegou na ponta para checar o corpo do garoto que com certeza estaria esmagado no chão, porém, foi recebido por algo que o fez ser jogado para trás.


Foi uma ação tão rápida que, quando percebeu, estava sob uma criatura obscura, que o prensava no chão com uma das mãos e a outra era mantida para o alto, ambas possuindo enormes garras negras, prontas para dilacerar.


Os olhos vermelhos e diabólicos do ser contrastavam sob o céu e em sua pele escura preenchida por uma aura maligna. Isso uma vez já havia sido “humano”, que Dalton conhecia como Saketsu Sura, mas este agora estava com um par de chifres negros e com um corpo mais robusto, uma verdadeira besta demoníaca em um corpo de garoto, que rangia os dentes raivosos.


 Me perguntava quando eu veria sua verdadeira forma, e aí está — disse Dalton, isento como sempre.


Saketsu, — ou melhor o glasbhuk —, não estava para conversas, então já meteu a garra com ferocidade em Dalton, que saiu ileso por pouco graças à sua Metalmorfose que surgiu através de seu braço livre e se tornou uma espécie de escudo. Dalton fez um movimento ágil e chutou o glasbhuk de cima de si.


Quando se colocou de pé, viu o glasbhuk voltando para atacá-lo. A Metalmorfose começou a se modificar novamente e se dividiu, tornando-se duas lâminas longas que se prenderam sobre os pulsos de Dalton, que avançou com elas.


Os dois se moviam de forma surpreendente, a agilidade de ambos batia de frente, a diferença era que Dalton era calculista, atacava pensando em reagir, já o glasbhuk não se importava em se defender, seus pensamentos pareciam ser só o puro instinto descontrolado de matar, matar e matar.


Os movimentos improvisados do ser estavam começando a se tornar problema para Dalton.


Ele recuou alguns metros, e, da superfície da lâmina em cima do pulso, surgiu dois canos, que então foram mirados e começaram a atirar. Seus tiros não eram problema para o glasbhuk, que se movia de forma mais rápida e animalesca, desviando-se de um lado para o outro enquanto se aproximava.


Quando estava perto o bastante, com sua feroz garra somada à força bruta, desceu um forte ataque que, além de cortar, fez com que Dalton fosse arrastado para a beirada do prédio, não caindo por bem pouco ao conseguir firmar a tempo os pés no chão.


O arranhão feito pelas garras pegou da testa até um pouco abaixo de seu peito, rasgando sua roupa e quebrando seu óculos escuro, tornando amostra seus olhos submetidos à dor do seu ferimento, ao mesmo tempo que cheios de frieza.


Não deu nem tempo de pensar no próximo passo, o glasbhuk já estava próximo o bastante, prestes a aplicar um ataque feroz incapaz de ser defendido até mesmo por sua Metalmorfose.


Mesmo assim, Dalton fez o que pôde e botou os braços em frente ao corpo, recebendo assim outro golpe de garras como o anterior, mas desta vez não só um, mas dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze... incontáveis arranhões consecutivos, que o tirou do chão e, por fim, o fez cair para fora do prédio, com a frente de seu corpo agora toda retalhada.


Em meio a queda que resultaria em seu fim, pela primeira vez depois de muito tempo, lágrimas caíam juntas de Dalton, a não eram apenas pelo sofrimento dos danos.


“Desculpe, Isabel, Natália, não conseguirei continuar cumprindo a promessa de proteger o mundo…”


O corpo de Dalton acabou caindo sem vida ao lado do de Saketsu no mesmo estado, ambos dilacerados um pelo outro.


Enquanto isso, o glasbhuk lá de cima havia se acalmado, no entanto se mantendo ameaçador tanto quanto antes, tomado inteiramente pelas trevas.


Ukyi, fraco e todo atrofiado após ser derrotado por Dalton, havia acompanhado o final de cima de outro prédio distante, seus olhos moldados em surpresa, percebendo também que a presença tão terrível do glasbhuk era a mesma daquele dia da cabana, e podia afirmar que este ser não era Saketsu, ou de certa forma havia deixado de ser; não entendia direito o que estava acontecendo.


O glasbhuk acabou caindo de joelhos no chão depois de parecer perder as forças, com seu corpo esfumaçando como se a energia trevosa estivesse o deixando, dando cada vez mais margem para os mesmos ferimentos causados por Dalton no outro Saketsu que estava lá embaixo.


Se o glasbhuk tem seu verdadeiro corpo morto enquanto está fora dele, ambos morrem.


Ukyi sabia que se este Saketsu diante de seus olhos ainda estava existindo, é porque o verdadeiro corpo, mesmo naquela circunstância lá em baixo, de alguma forma, ainda estava vivo, e ainda teria a chance de ser regenerado caso a alma tivesse energia vital o suficiente, do mesmo jeito que aconteceu quando Saketsu teve seus ferimentos revertidos ao ser estraçalhado pelo caipira na cabana.


O Saketsu em cima do prédio, no caso o que seria a alma, desabou totalmente de bruços no chão e começou a sumir, não demorando para ser por completo. Ukyi, com dificuldade, saltou para esse mesmo prédio e se aproximou da beirada, olhando os corpos lá embaixo, que já estavam recebendo atenção de paramédicos, policiais e de várias outras pessoas.


O cadáver de Saketsu ainda permanecia lá, todo ferido, algo horrendo de se ver, e parecia que não iria acordar, nunca mais.


Era isso, a energia vital do seu outro corpo que estava para fora, da sua alma, não havia sido o suficiente para curar seu verdadeiro ser, sendo assim, definitivamente, Saketsu havia morrido.