Fantasma Sombrio Capítulo 26


Capítulo 26

Um passado que formou um homem


Com seu habitual óculos escuro que refletia a claridade do sol que se punha às costas do garoto e apontando a ele um tipo de rifle de grande calibre, Dalton se aproximava sem pressa.


Saketsu se afastava o que podia, até sentir sua perna bater na mureta atrás de si. Estava cercado. Perplexo, tentou olhar para todos os lados, buscando alguma possível escapatória, porém não havia nada que pudesse ajudar, até mesmo Ukyi havia desaparecido, de novo.


Dalton parou a três metros, o braço esticado com a arma mirando em direção a cabeça do garoto.


— Esta é a última chance, Saketsu Sura. Una-se a mim ou morra de uma vez. Então, como vai ser?


Essa questão nem precisaria ter sido levantada novamente, Saketsu já havia decidido muito bem o que seria.


Era visível que Dalton tinha um tremendo ódio por glasbhuks, então por que queria Saketsu do lado dele?


Afinal de contas, por quê Dalton tinha todo esse rancor? Ele também se fazia essa mesma questão, relembrando o evento de anos atrás.


Há quase cinco anos, Dalton estava passando um final de semana de folga em uma casa de campo, junto de sua mulher e filha. A noite calorosa havia sido muito agradável, se divertiram, contaram histórias, jantaram e, por fim, terminaram comendo um mousse de sobremesa sentados em um sofá em frente a uma lareira.


Nesta época Dalton não usava óculos escuros, e isso deixava à mostra a expressão leve e agradável de seus olhos, acompanhados de um sorriso.


Esta noite está sendo muito boa — disse a mulher, abraçada pelo homem enquanto a filha já dormia cansada com a cabeça no colo dela. — Pena que seu trabalho só permite que façamos isso raramente.


Mas, Isabel, as coisas não são mais impactantes quando feitas em momentos raros? — Olhou-a de forma carinhosa.


E é verdade, quando uma coisa é rara, ela tem mais valor, de certo modo acabamos aproveitando mais.


Sim, devemos aproveitar, esquecer a vida na cidade, esquecer que depois de amanhã eu e você temos que ir trabalhar e nossa filha ir para a escola.


Sorte que ela está dormindo, ela não iria ficar nada feliz de ouvir isso.


O casal riu.


Dalton abraçou a esposa ainda mais e acariciou a cabeça da filha nas pernas dela.


Minutos foram se passando, a conversa dos dois foi ficando cada vez mais pausada enquanto o sono batia e, quando menos esperava, só havia o som de crepitação da lareira.


Dalton era o único que não havia dormido, seu olhar reflexivo encarava as chamas. Apesar de tudo, não conseguia deixar de pensar em alguns problemas cotidianos, afinal ser adulto é isso, uma vida cheia de pendências, que não importa o quanto tente evitar, esquecer, elas sempre acabam por roubar os pensamentos quando menos se espera.


Instantes depois, Dalton estava no banheiro, acabado de se aliviar da bebida. Lavando a mão em frente a pia enquanto encarava seu reflexo no espelho, parou no mesmo instante em que ouviu gritos; eram sua esposa e filha!


Desesperado, ele saiu às pressas para ver o que tinha acontecido.


Quando chegou na pequena sala, viu algo que o fez paralisar em choque e suas pernas tremer. Não estava acreditando; não, não podia ser. Por quê? Por que sua mulher e filha estavam estiradas ao chão, encharcando o piso de madeira com o sangue que escorria de seus corpos retalhados?


Havia um ser obscuro próximo a elas, de costas, dando para ver que tinha garras, e ao ele perceber a presença de Dalton, virou o rosto e tornou à mostra seus brilhantes e demoníacos olhos vermelhos.


Manifestando uma fúria tremenda, Dalton se moveu rápido para o outro lado da sala para se aproximar do cabide e, de dentro do bolso interno do casaco pendurado, retirou um revólver e apontou para o ser, que veio sem se segurar para cima.


Ocorreu três disparos, pareceu ter ferido o ser que havia parado, no entanto no outro instante ele se recobrou e avançou mais intenso ainda.


Quando estava perto o bastante, Dalton deu um passo para frente, ao mesmo tempo que encostou o cano do revólver bem na testa do ser, e deu um tiro certeiro, não demorando para o fazer cair duro no chão.


Dalton ficou parado, respirando quase sem fôlego, a visão mirada no ser, digerindo o que havia acabado de acontecer. Depois de lutar para juntar coragem, focou em sua mulher e filha — ou o que sobrava delas.


Dalton começou a tremer chocado. Não estava acreditando. Ele começou a se aproximar e caiu de joelho perante a elas.


Tocou no corpo da filhinha e não havia mais palpitação alguma, o único sangue que fluía era o que vazava para fora de seu corpo. Olhou para a esposa e viu que os olhos abertos

dela estavam totalmente sem vida, ela havia recebido grandes cortes na frente de seu corpo, causados pelas garras daquela infeliz criatura.


Dalton puxou os corpos das duas para si em um abraço e lágrimas começaram a escorrer, cada vez mais, ao ponto de fazê-lo soluçar. Nunca havia chorado tanto na vida, e não esperava que se um dia fosse acontecer seria pela razão da sua única família ter sido assassinada.


Remoído com uma profunda dor na alma, Dalton olhou para o ser que jazia após um tiro bem dado no meio da testa e, ao reparar bem, percebeu que não era apenas um ser, e sim um homem, um homosapien, um humano com garras e chifres negros, de olhos totalmente vermelhos.


Ambulâncias e policiais chegaram quase uma hora depois que Dalton mesmo havia acionado. Ele foi encaminhado para fora do lugar e recebeu todo apoio que precisava, sendo acompanhado até voltar para a sua casa na cidade.


Tarde da madrugada no final do mesmo dia, ele havia bebido tanto para afogar as mágoas, que já tinha perdido total consciência de quem era. Contudo, ainda assim não conseguia tirar da cabeça o que havia acontecido, não importava o que fizesse.


Sentado em sua cama, deixou sua garrafa de whisky cair no chão e se debruçou para chorar, só que logo parou quando percebeu uma presença repentina se sentando ao seu lado.


Era algo obscuro, trajado com uma capa e capuz negro, e seu rosto era assustador, um completo esqueleto, um ser dourado com um crucifixo de prata encravado bem no meio da testa — era a própria Morte.


Veio me levar também? — questionou Dalton, não se importando com mais nada.


Não — respondeu Morte, com sua máscula e imponente voz, soando como um eco. — Vim para te dar um consolo.


Quer me consolar? Traga as duas de volta à vida.


Eu não sou capaz de trazer ninguém de volta à vida, eu só tiro. Contudo, eu posso te ajudar dando-lhe algo, o poder para se vingar.


Me vingar? Eu já acabei com o demônio que fez aquilo com elas.


Ele não era único, há outros como ele espalhados por aí, escondidos na sociedade, apenas esperando a hora certa para atacar. São chamados de “glasbhuks”.


Você está falando sério? Então o sobrenatural existe?


Ora, Dalton, você está falando com uma entidade como eu, e você viu diante de seus olhos o que aconteceu com sua mulher e filha.


Dalton voltou a olhar para frente, revivendo tudo.


Eu vou te deixar um presente. Use para vingar a morte de suas entes e para evitar futuras vítimas dos outros “demônios” que há lá fora.


Quando Dalton percebeu, Morte havia sumido, deixando no lugar, sobre a cama, uma misteriosa caixa preta.


Três dias depois, um velório para mãe e filha foi preparado. Enquanto terra ia sendo jogada por cima dos caixões, Dalton só observava aquilo com um olhar vazio, não chorando apenas porque não havia mais lágrimas.


Parte de si ainda não aceitava que elas haviam morrido, só que era fato, era a realidade, e ele não havia conseguido fazer nada naquele momento para salvá-las. Mas tinha algo que poderia fazer a partir dali: caçar todos os tais glasbhuks, por elas.


Quando botou óculos escuros para esconder os olhos fundos com rancor, percebeu um amigo, diretor de uma escola, chegando ao lado de uma moça, sua filha.


Dalton — cumprimentou.


Wilson — retribuiu.


Sinto muito pelo que aconteceu com a Isabel e a Nat. — A jovem o abraçou com compaixão.


Obrigado, Cari — respondeu sem esboçar uma mínima emoção.


Posso imaginar como é, também perdi minha esposa e minha mãe na mesma semana. Vai ser difícil, mas você vai conseguir superar, e caso precise de algo pode contar comigo.


Wilson apertava com as duas mãos a de Dalton.


Obrigado.


O pai e a filha sorriram gentilmente e passaram por ele, dando uns toques no ombro dele.


Dalton continuou andando e parou pensativo, olhando para uma floresta distante. Logo percebeu seu chefe de departamento se aproximando e parando ao seu lado, passando a mirar a mesma direção.


Dia difícil, né? Dalton não respondeu.


O chefe tirou um maço de cigarro do terno, pegou um e colocou na boca para acender.


Não vai me oferecer? — perguntou Dalton.


O chefe parou, meio surpreso.


Sério? Mas você sempre recusou.


O chefe deu um para Dalton e acendeu para ele com seu isqueiro.


Eu vou estender suas férias para mais um mês, para você esfriar a cabeça, e se precisar de algo pode contar comigo.


Na verdade tem uma coisa, quero que você me troque de departamento, me coloque na parte de investigação criminal.


Hã? E a advocacia?


Não faz mais sentido para mim.


Tudo bem então. A partir de hoje, considere-se um investigador criminal. Conto com você, agente.


Dalton não tinha decidido entrar nessa área apenas por capricho, e sim para caçar e acompanhar de perto os possíveis suspeitos de serem glasbhuks, para os matar antes que eles matassem alguém, e faria isso com a arma sobrenatural que recebera do próprio Deus da Morte, um objeto de composição estranha que era capaz de assumir qualquer forma.


Os anos foram se passando, Dalton havia conseguido caçar vários glasbhuks, encontrando alguns que não tinham as mesmas características sobrenaturais obscuras e que manifestavam outro tipo de poder, mas Dalton não queria nem saber, eliminou todos sem hesitar.


Talvez por um acaso do destino, Dalton acabou encontrando uma organização oculta que lidava com casos sobrenaturais e fez parte por um tempo, conseguindo com isso conciliar com o serviço da polícia para cumprir seu principal objetivo.


Foi um caminho árduo, de muito trabalho de investigações, batalhas e assassinatos, sua vida só se resumindo puramente a isso.


Não muito distante do dia atual, enquanto estava em seu escritório, com as luzes apagadas e pesquisando algo em frente ao computador, Dalton havia recebido uma visita inesperada que surgiu ali do nada, o fazendo sacar prontamente a arma da cintura e se virar para mirar, assim se deparando com Morte.


Há quanto tempo, Dalton — falou a entidade.


Diga o que quer. — Dalton guardou de volta a arma.


Primeiramente te parabenizar, você tem feito um ótimo trabalho como “caçador”. E também vim para te apresentar o caso de mais um glasbhuk, este é mais interessante. — Morte tirou um envelope e entregou a Dalton.


Saketsu Sura. 15 anos. — Dalton conferia a folha que havia recebido dentro do envelope.


São poucas informações, mas já é o bastante. Para mais detalhes, prefiro que você fale direto com um professor chamado Noah Azrael, o contato dele está aí também.


Certo. Mas, você poderia me dizer por que este caso é mais interessante?


Digamos que Saketsu é diferente dos outros, e ele pode ser útil para você.


Dalton acabou guardando isso, e depois de conhecer Saketsu, pôde ver que de fato ele era um pouco diferente, não por ser o primeiro glasbhuk que conheceu naquela faixa de idade, e sim por ter sido demonizado desde pequeno, logo ele parecendo ter conquistado um certo domínio de sua natureza por conseguir conviver no meio das pessoas hoje em dia.


Dalton sabia do que as capacidades de alguém que é treinado desde jovem seria capaz de realizar, poderia despertar um grande poder em Saketsu que seria usado pelo bem da humanidade, poderia ser uma oportunidade.


No entanto, percebeu que foi só questão de tempo para que Saketsu pudesse finalmente manifestar seu verdadeiro eu, a verdadeira face de um glasbhuk, depois de ter matado aquele homem na cadeira no porão de sua casa, aqueles quatro marginais e, possivelmente, a garota chamada Aine, podendo até haver outras vítimas que não estava sabendo.


No fim todos os glasbhuks são iguais, mas mesmo assim Dalton continuava deixando a possibilidade de uma parceria aberta, sabia que poderia de alguma forma atuar bem junto com Saketsu, por outro lado poderia matá-lo sem problema também, tudo só dependia escolha dele.


Eu já disse, eu não vou me juntar a um merda como você, prefiro morrer! — O garoto decidiu de modo desafiador, apenas esperando o momento que estava certo de acontecer.


Tudo bem. Você escolheu sua morte, Saketsu Sura. — E Dalton moveu o dedo no gatilho de seu rifle.