O caminho de Asura capitulo 12

 


Capítulo 12

Olhe para Frente


Raven carregava alguns vários ferimentos. Cortes, hematomas, fraturas e também estava muito cansada.


À sua frente estava o quarto apóstolo. Ele estava tentando a capturar até um segundo atrás, até que parou, e fixamente começou a olhar para sua direita.


Confusa, Raven olhou na mesma direção e viu Asura caindo no chão, além de Cassiel, morto.


— Asura…


Ela deu um passo em direção ao jovem, mas parou, ao se lembrar do apóstolo ao seu lado.


Seu olhar se encontrou encontrou com o do ser brilhante.


— Você…


O apóstolo estava se desfazendo em pedaços que subiam aos céus.


— Eu… — Ela ficou sem palavras.


O quarto então levantou sua mão direita e começou a acenar, despedindo-se.


Para Raven pareceu que toda aquela luta não teve o mínimo sentido. Se machucar, machucar os outros…


Não demorou para que o apóstolo se desfizesse por completo.


— Não…


O mesmo aconteceu com os outros. Todos os apóstolos desapareceram.


Uma aflição, um arrependimento, tomou conta do coração de Raven. Ela queria poder desfazer tudo isso.


“Asura, eu preciso…”


Bastou ela tentar dar mais um passo para que perdesse o equilíbrio e caísse no chão.


— Ah… Ai…


Seu corpo clamou por descanso. A tarefa de se levantar parecia cada vez mais difícil. Os ferimentos que haviam parado de sangrar estavam voltando a o fazer.


Mas mesmo assim, Raven ficou de pé, e com as pernas trêmulas ela lentamente andou até Asura.


As dezenas de lagartos que auxiliaram na luta começaram a se juntar ao lado do jovem também.


Sob a chuva que ficava cada vez mais forte, Raven alcançou Asura.


— Asura! Asura!


Não houve resposta.


Ao ver a quantidade de sangue espalhado pelo rosto e pelo peito de Asura, Raven não conseguiu manter a calma.


— Não… Não, não, não… Não me deixe… Asura!


“Ele não está respirando. O sangramento é muito grave. Inúmeras fraturas, ossos quebrados, temperatura descontrolada. Eu não posso conter isso tudo sozinho. Você precisa fazer algo agora.” Askhalon direcionou a palavra a Raven, mesmo que ela não pudesse ouvir.


“Acalme-se. Acalme-se!” A garota entrou em uma disputa mental contra o pânico.


“Eu não consigo fazer quase nada por conta do maldito selo! Se ele não me impedisse, bastariam dez segundos para que meu fator de cura acabasse com todos esses ferimentos!”


Frustrado e irritado, Askhalon tentou fazer ao menos aquilo que estava dentro de seu alcance, fazendo o sangramento geral diminuir e expelindo qualquer corpo estranho, como estilhaços de gelo, para fora.


“Eu preciso… fazer algo… Faça alguma coisa… Ele vai morrer se eu não fizer nada…”


Mesmo que ela quisesse agir, simplesmente não conseguia. Parte da culpa era de seus ferimentos, mas a outra parcela era do pavor de, mais uma vez, ver alguém importante para ela morrer à sua frente.


Medo de ficar sozinha. Culpa por envolver Asura nisso tudo. Arrependimento por não ter conseguido ser mais útil.


Raven estava sendo esmagada por seus sentimentos.


Mas, como diria um certo homem, aquele que vive à sombra do medo não vive a totalidade da vida.


Raven deu uma batida em seu rosto com as duas mãos, deixando suas bochechas levemente vermelhas.


— Você disse que se tornaria a razão dele, não disse?! Isso não vai acontecer se ele morrer! Não há tempo para medo, culpa ou arrependimento! Ele disse que nenhum de nós morreria, então se ele não pode garantir isso, eu irei!


Vendo que o sangramento estava diminuindo, Raven aproximou seu ouvido ao rosto de Asura.


“Alonse, minha mãe, meu pai e minha avó me ensinaram a tratar uma pessoa, curá-la, salvá-la, mesmo numa situação de emergência! E não foi em vão!”


— Não está respirando…


A garota se afastou, ponderou por um momento e então decidiu como agir.


Raven pegou uma pedra, colocou a cabeça de Asura sobre ela de modo que ficasse inclinada para trás, apertou o nariz do jovem e abriu a boca dele.


“Você não vai morrer!”


Os lábios da moça se encontraram com os do rapaz e os envolveram, ela então insuflou quatro sopros fortes e rápidos.


O peito de Asura começou a subir e descer, ele havia voltado a respirar.


A garota então afastou seu rosto e viu dois lagartos de teia tecendo fios sobre o ferimento no peito do jovem.


“Preciso levar ele de volta ao castelo!”


— Ei, pequenos! — Ela chamou os Lagartos — Eu preciso que aqueles que podem fazer essas linhas cubram os ferimentos e garantam que ele não volte a sangrar. Entenderam?


Os lagartos de teia começaram a correr pelo corpo de Asura, fazendo o que a menina pediu.


Raven rasgou as mangas de sua blusa e as amarrou na mão direita do jovem, onde estava o ferimento causado pela técnica de implosão, e na parte de trás da cabeça, por onde vazava sangue, também.


— Tá bom, acho que assim já dá pra te levar para o castelo!


A garota agarrou a cintura de Asura, passou o braço direito dele por trás de seu pescoço, dando-lhe apoio, e se levantou.


Mas ela novamente caiu de joelhos no chão, e por pouco impediu que o mesmo acontecesse com o rapaz inconsciente.


Os pequenos Lagartos encararam Raven, preocupados.


— Tá… tudo bem. Vai dar tudo certo. — Ela falou enquanto se levantava, conseguindo manter-se de pé dessa vez.


Foi então que um Lagarto de Teia cobriu com fios um ferimento que estava sangrando na canela da perna esquerda da moça.


— Obrigada… Nós vamos conseguir!


Raven começou a andar.


Sob a fria chuva ela foi dando um passo após um outro.


Mesmo exausta e cheia de ferimentos, mesmo carregando uma pessoa que não dava um passo sequer, mesmo assim ela estava conseguindo.


— Ah… Ai… Vamos… Vamos… Vai ficar tudo bem, a gente vai conseguir… — Ela repetiu enquanto caminhava.


“Vamos, mais rápido… Mais rápido!" Askhalon gritou.


Raven pisou no barro, escorregou e quase foi ao chão, mas ela impediu que isso acontecesse agarrando um galho de uma árvore ao seu lado.


— Ah…


O galho era espinhoso, então acabou rasgando a mão dela.


— Vamos… conseguir! — Ela cerrou os dentes e seguiu em frente.


A garota acelerou seus passos e logo saiu da floresta, conseguindo avistar o castelo logo em seguida.


— Quase! Asura, estamos quase lá!


Os olhos de Raven pararam no rosto do jovem, e ela não poderia ter ficado mais aflita.


Ver sangue escorrer pela boca dele, ver a pele dele pálida e seus olhos vazios…


E eles então chegaram.


Quando os Lagartos de Teia já quase não conseguiam conter o sangramento, quando a moça já ameaçava desmaiar, quando a chuva ficou ainda mais impetuosa, eles finalmente adentraram o castelo.


Mas ainda estava longe de ter acabado.


Raven colocou Asura no chão porque ela já não aguentava carregá-lo e ele estava ficando sem tempo muito rapidamente e correu para a cozinha, voltando logo em seguida com curativos, água e algumas outras coisas em mãos.


Ela começou envolvendo os ferimentos mais graves com ataduras enquanto lutava para estancar o sangramento.


Tendo feito isso, a garota o carregou para o quarto, onde o colocou na cama.


Mas Raven não parou, ela continuou correndo de um lado para o outro, pegando panos, ervas, água e várias outras coisas.


****


Logo amanheceu.


A chuva havia parado, dando lugar a um lindo dia ensolarado.


Os raios de luz entravam pela janela do quarto de Asura, iluminando a cena que ali havia.


O jovem continuava deitado. Sem camisa e cheio de ataduras.


Raven estava em uma cadeira ao lado da cama, dormindo. Essa com certeza foi uma das noites mais complicadas de sua vida.


Mas o esforço não foi em vão. Ela conseguiu a trancos e barrancos impedir que Asura morresse. Mesmo que após certo ponto tenha sido Askhalon quem o curou, se ela não tivesse feito nada, o jovem não teria aguentado.


Logo a garota acordou. Com fome, ela andou para fora do quarto, e pouco antes de sair, olhou para trás, mais especificamente para o rosto de Asura.


Ela sorriu ao ver que ele estava se recuperando, e saiu.


Raven chegou à cozinha após uma caminhada mancante, pegou um pão e se sentou à mesa.


Foi então que o bando de algumas dezenas de lagartos da noite anterior adentrou a cozinha.


— Ah, oi.


Ela acenou com a mão na qual estava o pão e os pequenos creetans seguiram o alimento com os olhos.


— Eh? Acho que tem pra todo mundo.


E lá se foram o que restava de pães.


Parecia que as coisas haviam sido resolvidas, mas uma ainda estava pendente.


— Descanse em paz.


Raven estava na floresta, em frente a um relevo de terra em meio à grama.


Por que as coisas tiveram que acabar assim?


O que os envolvidos ganharam?


Cassiel morreu. Asura acabou gravemente ferido. As ordens do paladino não foram cumpridas e seus princípios também não. O jovem e ela continuariam sendo perseguidos pelo rei.


Então, novamente, o que eles ganharam?


O pensamento de que tudo isso ocorreu somente porque Cassiel insistiu em seu dever não saía da mente de Raven.


Por quê?


E também por conta de Asura, que não pensou duas vezes antes de partir para um combate mortal.


Por que eles nem sequer tentaram resolver isso de outra forma?


E uma resposta veio à sua mente: porque eles acreditavam no que estavam fazendo.


Cada um com sua própria perspectiva lutou pelo que acreditava e queria. Sem lado certo ou errado, apenas adversários.


E por isso não houve arrependimento ou rancor de nenhuma das partes. Por isso, Asura desejou paz a ele, e Cassiel, mesmo depois de morto, manteve um pequeno sorriso em seu rosto.


Se esses dois estavam de bem com isso, não poderia ser Raven quem ficaria se remoendo, ela não queria isso.


“Olhe para frente, senão o passado vai te derrubar.” Um provérbio passou por sua mente.


— Você… — Ela olhou para a sepultura do homem prestes a partir. — Tenho certeza de que você foi um ótimo paladino! O melhor!


Se a alma de Cassiel ainda estivesse aqui, com certeza estaria sorrindo.


— Adeus. — Lá se foi a garota.


****


Um dia se passou, e então…


— Kayou… — Murmurou Asura ao despertar.