Fantasma Sombrio Capítulo 23


Capítulo 23

Véu da Morte


Tudo era apenas silêncio e escuridão, até se despertar no instante seguinte.


Saketsu havia se sentado rapidamente, como se por um momento tivesse perdido o ar.


Ainda um pouco ofegante, olhou ao redor e percebeu que estava em uma cama, em um quarto completo desconhecido, mal-iluminado por uma vela que estava sobre um pires no criado-mudo ao seu lado, dando um avermelhado ar macabro para o ambiente.


Levantou-se depressa, confuso. Havia uma cadeira e uma pilha de livros em cima de uma escrivaninha, além de um aberto, que ao se aproximar para olhar bem, parecia descrever uma espécie de procedimento para algum ritual, com alguns símbolos e tal.


Mas sua atenção não se prendeu tanto a isso. Ao olhar para o outro canto da parede, viu uma pequena estante com mais livros e alguns pequenos frascos de diferentes tipos de óleos e ervas, parecia uma espécie de coleção de ingredientes para poções.

Em outro lado, tinha um pequeno altar em uma mesa coberta por pano preto, com uma vela de sete dias acesa, suporte para incenso, uma taça de água, baralho divinatório e outros elementos que não tinha como dizer que não era coisa de bruxaria.


O quarto estava impregnado com um forte cheiro de erva, chegando a lembrar até da sra. Gardênia, mas tudo ao redor não podia ser pertencente a ela ou a alguém de sua estirpe, era mais obscuro, a pessoa com certeza mexia com coisas mais pesadas, poderia muito bem ser uma bruxa, considerando se fosse igual aos filmes que já vira.


A única saída dali era uma porta composta por uma cortina de contas que conseguia esconder o que estava do outro lado, e, mirando ela, não pôde deixar de imaginar que a qualquer momento uma assustadora velha enrugada surgiria.


De forma inevitável, não demorou para que as lembranças da noite começassem a vir à tona.


Ele e Ukyi haviam planejado de invadir o lugar onde Dracarys estava, tinha deixado seu corpo escondido em um beco deserto a poucos quarteirões de lá e usaria a estratégia de retornar para ele quando a coisa ficasse feia, surtindo assim como um teletransporte de fuga, mas o que não entendia era como e o porquê tinha acordado em um lugar estranho e desconhecido em que estava.


Suas lembranças continuaram e não demorou para se frustrar. Tinha decidido que ia dar uma lição em Dracarys, fazê-lo pagar por toda discórdia que causou, acabar com ele, estava certo disso, e quando estava perto, quando teve a oportunidade, foi como se tivesse batido direto em uma muralha, sua força sendo plenamente inútil contra aquele desgraçado.


Ter consciência disso fazia o sangue de Saketsu ferver. Tivera uma expectativa e ela fora quebrada; pior, dilacerada. E agora? Dracarys ficaria impune, causando mais mal para outras pessoas? Não, não podia permitir, teria que dar um jeito de lutar com a impossibilidade de vencê-lo.


Oi?


Quando se deu conta, Saketsu que estava sentado na cama olhava com uma expressão odiosa para uma mulher inclinada com o rosto bem próximo ao seu, transformando assim sua seriedade em surpresa.


A mulher era linda. Ao ela endireitar o corpo, deu para ver o quão seu vestido gótico lhe caía bem, acentuando suas curvas harmoniosas. Seu cabelo negro, igualmente a cor dos olhos, era longo e sedoso, tão lindo quanto o de Lana, com um roxo que degradeava até as pontas. Apesar de tudo, porém, o que ela tinha na beleza, logo pareceu que faltava na simpatia.


Finalmente acordou, Saketsu Sura — disse ela, em tom meio seco, parada observando com seriedade o garoto que assumiu um aspecto cauteloso.


Quem é você? — perguntou, atento a qualquer estranheza que ela pudesse manifestar.


Meu nome é Carla, sou uma bruxa, feiticeira, vidente e médium — respondeu. — E adianto que, o fato de você estar aqui, é porque recebi uma mensagem do “Além”. Estive à sua procura por alguns dias, para tentar te ajudar.


Me ajudar... Me ajudar com o quê?


Eu quem te pergunto. Não anda passando por coisas estranhas ultimamente?


Estranhas? — perguntou a si mesmo. Se andara passando por coisas estranhas? Com certeza. Mas não sabia mais o que era realmente estranho, ou melhor, não sabia como responder àquela pergunta de maneira curta e objetiva.


Anda vendo sinais ou algo do tipo?


Saketsu desviou o olhar para um canto, seus pensamentos tomando conta. Agora que refletia, percebia que haviam, sim, "sinais" estranhos ocorrendo ultimamente…


Bom, eu não sei direito, mas, toda vez que olho no relógio, ando vendo horas iguais, agora que reparei que isso é bem estranho... — respondeu vagamente.


Carla reagiu com naturalidade, como se não fosse nenhuma novidade, e continuava a olhá-lo, querendo escutar mais. Saketsu então continuou, enquanto ia se lembrando:


Nessas últimas noites, andei tendo sonhos estranhos também, não que isso fosse novidade, mas os últimos começaram a ser mais intensos. Por exemplo, o de ontem eu sonhei que a menina que eu gosto havia se transformado em uma grande serpente negra, e ela me agarrou e começou a apertar meus ossos, ao ponto de eu sentir dor de verdade, daí ela me abocanhou e eu acordei.


A mulher esboçou um leve sorriso.


Entendo. Sonhos não são brincadeira, normalmente eles mostram o que está acontecendo na realidade, só que de maneira abstrata e até fantasiosa. Não que esse da menina que você gosta seja o caso, talvez tenha sido apenas manifestação do seu inconsciente, não sei. Mas enfim, por acaso, há algum tipo de sonho que tem sido mais recorrente?


Saketsu botou uma mão pensativo sob o queixo.


Acho que tem um. É de um que a cidade está em caos, tem um monte de criaturas caçando as pessoas, a noite está vermelha, parecendo até o Inferno, e no final eu sempre morro, seja pelas criaturas ou pela própria “Morte”. Mas eu não sei bem se é isso, eu não consigo me lembrar dos detalhes, sempre esqueço quando acordo.


Hum… — Agora era a mulher que estava toda pensativa.



Alguns minutos depois, Saketsu estava no outro cômodo, que era onde a bruxa atendia seus clientes, já que ela era uma espécie de feiticeira cigana dona de uma loja esotérica.


Em volta da parte em que estavam era todo cortinado, e a única iluminação continuava sendo a das velas ao redor que não tinham uma chama tão forte, inclusive a que estava sobre a mesa redonda onde se sentavam de frente para o outro.


Os dois permaneciam com a mesma conversa de antes, enquanto Saketsu bebia um chá de ervas que não conhecia, mas tinha um gosto bastante agradável. Ele começou a contar tudo o que estava passando, inclusive o fato de ser um glasbhuk, no entanto Carla sempre voltava para a parte dos sinais através das horas iguais e dos estranhos sonhos, e com isso ela só chegou a uma conclusão:



Você está prestes a passar pelo Véu da Morte.


Saketsu ficou até sem saber o que dizer. Com uma cara confusa, continuou ouvindo a explicação de Carla:



Poucos conseguem reparar, mas o Universo o tempo todo dá sinais. Na verdade, até tem bastante pessoas que chegam a perceber alguma coisa, mas elas logo ignoram achando não passar de impressão ou coincidência, assim deixando completamente de lado. Mas, pelo menos para mim, não existe essa coisa de coincidência.



E o que exatamente é esse “Véu da Morte” que você disse?



Essa é a parte que eu queria chegar. Acredita-se que cada ser-vivo, depois que nasce, tem uma data marcada para partir deste mundo. Quando o dia da pessoa está próximo, é aí que ela entra em contato com o Véu da Morte, que é como se fosse uma cortina que divide os dois mundos, o da vida e o da morte.



Hum.



Nisso, a conexão com o outro lado fica cada vez mais intensa à medida que o dia marcado se aproxima, o lado espiritual da pessoa ganha força, e a capacidade de clarividência pode ser despertada também, possibilitando começar a ver e perceber coisas que normalmente passariam despercebidas, que é o que está acontecendo com você.



Ou seja, eu estou prestes a morrer. — Saketsu se sentiu desconfortável. Mesmo que poucas horas atrás estivesse prestes a se entregar a morte, só querendo matar Dracarys antes, agora que estava mais relaxado a ideia soava absurda demais, não estava gostando de pensar que estivesse prestes a deixar tudo para trás.



E antes que você pergunte igual as outras pessoas que atendo aqui, não, não existe maneiras de evitar a morte. É uma fase que você terá que enfrentar, e de acordo com tudo o que me disse, pelo nível da coisa, ela está bem perto, pode ser a qualquer momento, como amanhã ou até no próximo instante. E não se preocupe, é algo que todo mundo terá que passar uma hora, nós nem sabemos o que tem do outro lado, no pior dos casos pode não haver nada para você, e se for assim nem lembrará que um dia existiu.


A mulher confortava do jeito dela, falando de forma simples e tranquila, como se tentasse fazer parecer que o assunto não era tão problemático como deveria ser, mas para Saketsu era, afinal achava que morrer significava deixar tudo para trás, e como seria passar a existir sem ter nada do que se fez presente em toda a sua vida?


O que me preocupa mesmo é sobre os sonhos apocalípticos que você contou que tem frequentemente.


Saketsu, que estava reflexivo com os olhos no escuro pano florido da mesa, percebeu um baralho de tarot sendo colocado sobre ela, em seguida as cartas sendo derrubadas em escadinha pela mulher, que o olhou.


Quero que você tire três cartas.



Hã? Eh, tá bom.


Saketsu as analisou de ponta a outra e, sem pensar muito, começou a puxar de uma em uma, até dar as três. Carla recolheu as outras e pediu para Saketsu virar as que havia arrancado. Ele o fez.



A Torre. O Diabo. E O Mundo. É isso que está me deixando intrigada, porque toda vez que eu faço uma divinação questionando a situação do mundo, sai exatamente essas três cartas.



Eu não entendo. — Saketsu fazia mais cara de confuso ainda.



A carta da Torre representa desmoronamento, destruição, associada a eventos caóticos. O Diabo representa os aspectos sombrios da natureza humana. Já o Mundo pode estar simbolizando a totalidade de tudo que existe, o próprio mundo. Em si, a mensagem que esta tiragem traz é que o mundo está prestes a sofrer um colapso que abalará toda a estrutura humana, levando a um apocalipse de total destruição.


Saketsu se surpreendeu.



De alguma forma que eu ainda não consigo compreender, você está relacionado com tudo isso. Eu fui atrás de você porque vozes do que eu chamo de “Além” me disseram para fazer isso, para te notificar, então eu segui até o beco que me foi indicado e lá te achei e te trouxe para cá. Seja lá o que ou quem for, queria te fazer saber.



Mas por quê? O que esse alguém espera que eu faça?



Não sei, realmente não sei. As únicas coisas que eu tenho certeza é que você está prestes a morrer e o mundo prestes a acabar. Você está pronto para encarar o destino?