Fantasma Sombrio Capítulo 22

 


Capítulo 22

A brincadeira  de Dracarys


Depois de um tempo andando, Ukyi parou de repente enquanto Saketsu deu mais um passo e parou também, reparando que estavam em frente a um belo portão de grade de uma mansão.


Olhando em volta, haviam outras belas casas. Era presumível que já não estavam mais na cidade de Veraluz, e sim em uma região mais afastada, habitada por pessoas de alta classe, o tipo de Dracarys, pelo menos de acordo com as histórias que ele contara na sala de aula, de que era de família rica e coisa assim.


De qualquer modo, de fato era o lugar certo.


Bem arrumado com uma camisa preta, calça e sapatos escuros, segurando uma taça de vinho com a mão esquerda que calçava uma luva de couro que possuía costurado um crucifixo de prata composto por um pequeno crânio no meio, Dracarys caminhava tranquilo pelo grande salão do hall de entrada, cuja única iluminação era a do luar que penetrava pelos grandes e belos vitrais no topo da escadaria metros à frente da porta.


Ainda em frente a ela, havia duas fileiras de pessoas posicionadas de frente uma para a outra, pessoas de semblante vazio e olhos cintilando em um vermelho vivo — zumbis sobrenaturais —, Dracarys passava entre eles enquanto degustava com prazer o vinho, apenas aguardando o momento especial que sabia que estava prestes a acontecer.


Boom!


A porta do salão se abriu com um forte estrondo, mostrando Saketsu ao lado de seu espírito guardião Ukyi. O semblante do garoto estava maléfico e seu olhar com um brilho vermelho sobrenatural, semelhante ao dos seres presentes ali.


— Ora, a que devo a honra, Saketsu Sura? — Dracarys abriu um grande receptivo sorriso.


Eu vou acabar com você! — rosnou Saketsu, focando diretamente o rapaz que estava a uns dez metros entre as duas fileiras de zumbis.


Acabar comigo? Por quê? — perguntou como se já soubesse a resposta, mas quisesse apenas provocar.


Você acabou com a vida de uma garota inocente, tudo para mexer comigo!


Uma? Você está sendo generoso — Dracarys sorriu de forma maliciosa. Saketsu não compreendeu.


Tem uma outra aí, pense: ela tem lindos cabelos negros, olhos verdes, que por sinal são muito perfeitos, um corpinho... hum... magro e... sexy, do jeitinho que eu gosto; uma pele clarinha e macia… — Cada palavra de Dracarys parecia carregar excitação, como se estivesse lembrando dos prazerosos momentos em que apreciara cada parte da garota que estava a descrever.


Lana…


Trim, trim, trim! Acertou, miserável!


Saketsu sentiu um ódio ainda maior se apoderar de si. Seus punhos começaram a tremer com vontade de estraçalhar a maldita cara daquele sujeito.


O que você fez com ela?!


Por que a pressa em saber? Não quer ir ali na sala se sentar primeiro para degustar esse delicioso vinho junto comigo?


Dracarys fez sinal e um zumbi próximo que segurava uma garrafa começou a servir outro que segurava uma taça e, após, este se aproximou de Saketsu, entregando-lhe a bebida. Saketsu não quis nem saber, bateu na taça com violência, a fazendo se estilhaçar na parede.


Que falta de educação. Deve ser por isso que demorou para arrumar amigos — insinuou provocadamente.


Essas palavras surtiram efeito em Saketsu, pois com elas deu para perceber que Dracarys sabia bastante — ou talvez tudo — sobre ele, e essa era uma das razões por estar ali, precisava tirar tudo a limpo, mas a raiva era tanta, que pensava se valia mesmo a pena esperar para acabar com ele.


Conte logo de uma vez! — bradou.


O que você quer que eu conte? É só me perguntar. Eu estarei encantado em responder tudo.


Por que você está fazendo tudo isso?


Ordens de alguém — respondeu, simples e direto.


De quem?


Deus.


Saketsu teve uma breve surpresa com a resposta, mas não demorou para a raiva tomar lugar novamente; Dracarys só podia estar de brincadeira.


Você é o culpado por tudo que aconteceu desde sempre?


Quem sabe? — Dracarys respondeu com tranquilidade.


Fale logo!


Na verdade, eu comecei a agir há poucas semanas — disse como se o que tivesse feito fora apenas algo simples, como ir na padaria buscar pão. — Agora, acredito que mais dúvidas começaram a surgir nessa sua cabecinha fútil, não é mesmo?


Então você tem a ver com Iuri?!


Nem sei quem é.


Dalton?


Dracarys negou com a cabeça enquanto movia o ombro.


E por qual motivo esse “Deus” te mandou para tentar me matar?


"Tentar te matar"? — Dracarys teve que se esforçar para segurar um riso. — Se “Ele” quisesse isso, já teria feito. Eu não sei exatamente qual o propósito Dele, a única ordem que recebi foi “brincar com você”.


Agora eu compreendo — disse Ukyi, que até então apenas assistia a conversa ao lado de Saketsu —, esse deve ser o motivo dos vibristeneus estarem agindo de maneira intensa, resultando no surgimento massivo dos zumbis-sobrenaturais. Tu, de alguma forma, consegue os controlar, e teria usado dessa capacidade para matar Saketsu caso quisesse, mas não o fez, apenas o fez lutar para testá-lo diversas vezes.


Então o culpado das mortes de milhares de pessoas inocentes, Esther, Aine, é você... Você matou pessoas que não mereciam morrer só... SÓ PARA BRINCAR COMIGO?!


Sim! — Dracarys abriu um insano sorriso. — Mais alguma pergunta para a gente encerrar esta sessão?


Saketsu já sabia tudo o que precisava saber: Dracarys estava por trás dos

zumbis-sobrenaturais o tempo todo, tudo por diversão enquanto seguia as ordens de um suposto Deus, e também era o culpado pela morte de Esther, Aine e…


Você havia se referido a Lana agora pouco, onde ela está?


Você ainda não entendeu? — Dracarys arreganhou ainda mais seu sorriso e, em tom mais alto, claro e zombador, respondeu: — Eu a matei.


Pronto, faltava só isso para fechar a conta. Saketsu se paralisou ao ouvir tais palavras, com as emoções trevosas tomando conta de vez do seu ser; não iria mais se segurar, Dracarys definitivamente não merecia perdão!


Ukyi — chamou o felino com um tenso tom de voz. Ukyi compreendeu e logo se desmaterializou em uma energia vermelha que foi até a mão do garoto que já estava estendida e pronta para segurar a espada negra que foi materializada.


Saketsu começou a adentrar cada vez mais o salão, com tanta sede de vingança que, quando se deu conta, seu corpo já se movia correndo em direção a Dracarys.


Quando se aproximou o bastante para atacar, porém, Dracarys estendeu sua mão direita e o conteve o segurando pelo cabelo. Com os rostos próximos, Saketsu viu o sorriso de Dracarys abrir de forma desdenhosa. Ia reagir, mas antes que pudesse de fato, viu o joelho dele vindo, o acertando com força bem no meio da testa e o fazendo voar a alguns metros de volta para a entrada.


Sakezinho, Sakezinho — dizia com uma irônica decepção —, nunca aprende que você não pode bater de frente comigo? Bom, pelo menos devo te elogiar por não ser tão burro, já que veio em sua forma glasbhuk desta vez.


Saketsu se levantava um pouco desnorteado após levar um golpe daqueles, e voltou a encarar de volta Dracarys com a mesma raiva de antes.


Own, quer se vingar tanto assim de mim? — provocou meigamente. — Bom, eu não vou deixar que seja tão fácil assim.


Dracarys deu dois leves movimentos com os dedos da mão que calçava a luva de couro com o crucifixo de prata e as dezenas de zumbis começaram a sair de seus postos, indo em torno de Saketsu.


Rodeado, Saketsu logo viu os primeiros zumbis avançarem para cima. Conseguiu dar conta facilmente deles com a espada, e não teve nem tempo de se recompor antes que precisasse lidar com outros.


Eles não eram tão fortes, porém eram muitos, e claramente estavam servindo de distração quando o verdadeiro alvo estava fora, parado distante apenas observando tudo do pé da escada. Não podia perder tempo com esses zumbis!


Quando finalmente conseguiu abrir caminho pela horda, passou já indo direto para Dracarys. Tentou acertá-lo várias vezes com a espada, contudo Dracarys conseguiu se desviar facilmente enquanto sorria de forma a zombar do esforço de Saketsu.

O nível de habilidade entre os dois era aparente, mas Saketsu não queria nem saber, estava disposto a matar Dracarys mesmo que tivesse que se sacrificar para isso; não se importaria em perder sua vida, já que sua razão de viver havia sido morta pelas mãos dele!


De repente, notou outros dois zumbis pulando para cima, cada um do seu lado. Saketsu teve que recuar para não ser pego, e isso o afastou de Dracarys, que começou a subir com tranquilidade os degraus.


Saketsu não havia nem dado fim nos dois zumbis à frente e reparava nos outros vindo por trás. Estava cercado novamente, e sabia que para sair do meio deles não teria outro jeito a não ser lutar.


Passou a não poupar esforços para dar cabo nos zumbis que vinham. Estava lidando bem, até que, distraído, sentiu o peso de um punho gigante bater com força em seu peito, o arremessando para além dos zumbis, de volta à porta.


Sentindo dor, começou a se levantar com dificuldade sem entender o que havia acontecido. Então viu o responsável que o atingiu de forma tão bruta, sendo um ser demoníaco, de uns dois metros e meio de altura, com músculos robustos e uma aura tenebrosa.


O que é aquilo?— perguntou Saketsu, assustado por estar vendo tal coisa pela primeira vez.


São algumas das milhares de espécies de criaturas trevosas que existem — respondeu Ukyi, e Saketsu percebeu que ele se referiu aos seres de diferentes tamanhos e formas que agora ocupavam o grande salão.


A aparência deles era peculiar, parecia até uma festa de fantasia de monstros, seres muito mais desenvolvidos que os simples zumbis-sobrenaturais, e com isso Saketsu sentiu sua determinação ser abalada.


Passou a reparar em algumas feras caninas de pelagem escura e que usavam crânios de algum outro ser desconhecido como acessório na cabeça, elas foram as primeiras que começaram a se aproximar de forma lenta e ameaçadora.


Além delas, outras criaturas também começaram a chamar atenção, elas eram cobertas por um escuro manto esfumaçante, circundavam em volta do lugar como fantasmas, mirando diretamente o garoto.


A influência da natureza obscura da presença dos seres ali afetava o ar, o tornando pesado e desagradável. Saketsu não era tolo de achar que conseguiria dar conta, os segundos passavam e se via cada vez mais cercado.


As feras finalmente avançaram para cima. Saketsu se afastou da onda de ataques. Um dos grandões visou atingir por trás, e Saketsu escapou por pouco ao desviar para o lado, notando em seguida os destroços do piso causados pela força esmagadora do ser.

Investidas começaram a ocorrer de todas as partes sem parar. Não tinha brecha para raciocinar uma estratégia de ação, Saketsu nem sabia mais como estava desviando, se movia pela força do puro reflexo.


Use-me, minha lâmina será eficaz contra eles — falou a espada.


Estou tentando!


Mesmo o salão sendo grande, a concentração de seres ao redor de si já estava começando a limitar demais seus movimentos.


Enquanto isso, do topo dos degraus, com sua taça de vinho, Dracarys se divertia assistindo o sufoco do garoto. Estava tranquilo, o resultado da batalha já era garantido.


Vamos ter que sair daqui! — disse Saketsu, olhando a porta a alguns metros por cima do mar de monstros.


Então pulou para cima de um e começou a pisar em ombros e cabeças de outros, seguindo em direção a saída.


Quando estava prestes a atravessá-la para dar o fora do sufoco, no entanto, algo o repeliu para trás, fazendo com que batesse no umbigo de um dos grandes seres, que não perdeu a oportunidade de atacar com seu pesado punho.


Saketsu reagiu a tempo de mover sua espada e abriu o braço do monstro ao meio com a lâmina, dando a volta e em seguida cortando facilmente a cabeça dele.


Na breve pausa, olhou em direção à porta e entendeu o porquê de não ter conseguido atravessar, havia uma barreira de aura escura quase invisível bloqueando a passagem.


Me use — falou a espada novamente.


Saketsu a firmou em mãos e avançou aplicando um corte no meio da barreira, fazendo com que ela se dissipasse com facilidade. Então saiu.


Olhou para trás e viu que os seres vinham, em especial as feras negras maiores que lleões, que eram mais ágeis comparadas aos outros, tão rápidas que Saketsu percebeu que não conseguiria superá-las.


Com isso, parou e se virou para elas, que vieram para cima com um salto e foram recebidas com cortes fatais, sendo dissipadas como fumaça negra no ar.


Menos quatro de dezenas! — tentou se motivar, mas estava deveras aflito.


Foi questão de míseros segundos para se ver cercado novamente, e tinha que aproveitar enquanto ainda tinha espaço o suficiente para se movimentar.

Outros seres se aproximaram com velocidade. Saketsu os encarou de frente e deu conta com a espada, que tinha uma lâmina eficaz ao ponto de fazer as criaturas parecerem frágeis como papelão.


Movimentos, ataques, defesas, desvios e mais ataques, depois de dar fim em mais de incontáveis variados seres, Saketsu teve a chance de recuperar um pouco do fôlego que já estava no completo limite, só que no outro instante se percebeu rodeado de novo, parecendo que o número de seres não tinha diminuído, pelo contrário, havia aumentado!


Dracarys os está invocando, não vamos vencer, tu deves aplicar o plano de recuada agora — alertou Ukyi.


Saketsu viu diferentes seres surgindo de diferentes portais negros ao ar, próximos de Dracarys, que estava com o corpo inclinado na lateral da porta de entrada e os braços cruzados, se entretendo.


Saketsu havia feito o que pôde para matar as criaturas, e quando o número finalmente pareceu diminuir e a chance de lutar contra Dracarys começou a surgir, percebeu estar completamente enganado.


Podes ir, depois eu te encontro — falou Ukyi.


Droga. — Saketsu se sentia frustrado, humilhado, mas não tinha opção.


Então fechou os olhos, se concentrou em desejar retornar para seu verdadeiro corpo, ouviu os seres se aproximando e, no momento em que sentia que iria ser pego, bem no milésimo crucial de segundo, Saketsu sentiu um solavanco no escuro enquanto tudo havia se calado.