Fantasma Sombrio Capítulo 21


Capítulo 21

O monstro põe a cara para fora


Depois de Saketsu sair de sua casa, algumas horas já haviam se passado. Eram 22:22 quando olhou no celular.


Até ali, havia vagado pelas ruas da cidade movimentada e já estava meio longe de casa. Sua raiva havia amenizado um pouco, mas não conseguia tirar da cabeça as cenas de momentos atrás.


Estava tão focado naquilo que nem percebia as pessoas o olhando de relance enquanto passavam ao seu lado, o vendo parecer um lunático ensandecido, que tinha um leve corte na bochecha feito pela faca de Aine, cujo o sangue escorrido já estava seco; era de causar afastamento.


Não sabia para onde estava indo, a única certeza que carregava consigo era o objetivo de encontrar Dracarys e fazê-lo pagar!


Não sabia nada sobre ele, exatamente nada, exceto ele ser um glasbhuk que prejudicou muita gente por mera brincadeira.


Era certeza que o real motivo do afastamento de Lana foi por culpa de Aine que apenas seguira as ordens de Dracarys, tinha que ser, tudo se encaixava, ainda mais se lembrando das palavras na carta de Lana que dizia “seu novo relacionamento”.


Saketsu parou, sentindo o ódio ferver ainda mais dentro de si.


E se tudo estivesse sendo manipulado por Dracarys desde o começo, indo desde o ataque de Iuri, Dalton, aquele caipira, a morte de Esther... Até mesmo Ukyi poderia estar do lado dele.


Não, e se até mesmo antes de tudo isso pegar força, Dracarys já estivesse agindo?


Saketsu nunca tivera uma vida normal de fato, sua infância parece até um conto de fadas obscuro para quem ouve.


Poderia ser, também, que o mundo todo estivesse envolvido, como se tudo isto em volta — as pessoas — fizesse parte de uma peça teatral que tinha como intuito principal testá-lo para ver até onde ele poderia chegar.


Realmente não sabia o que achar, agora se sentia como se mal conhecesse a si próprio. Seria melhor parar de pensar nessas coisas, precisava voltar ao foco, precisava achar Dracarys e destruí-lo!


Quando se deu conta, estava passando por uma viela escura e deserta. Ao reparar, via sobre fios de postes meio distantes alguns urubus, olhando em sua direção, como se esperassem alguma coisa.


A atenção de Saketsu voltou para frente quando notou que haviam quatro adolescentes, marginais, vindo sem pressa em sua direção. Sabia que eram o tipo de gente que não deixava a oportunidade de arrumar encrenca passar, entretanto não os temia, e nem estava com paciência para lidar com eles, apenas continuaria seguindo, ignorando — como se isso pudesse ser possível…


— E aí, mano! Pode parando aê! — disse um deles, segurando Saketsu pelo ombro.


— Passa as paradas que você tem, aí você pode vazar de boas! — disse o outro, sorrindo enquanto segurava um revólver que havia acabado de sacar da cintura, encostando-o no peito do Saketsu, já com o dedo no gatilho.


Saketsu não fazia nada, porém passou a olhar de um para o outro com uma estranha surpresa.


— Vai, mano! Quer morrer, mermão?!


Saketsu não respondeu, sua atenção estava tomada para os rostos deles. O semblante dos quatro pareciam alternar entre formas humanas e monstruosas, só que, depois de instantes, ao mirar bem, não tinha mais nada. Será que havia sido só impressão? Na verdade parecia que havia acabado de sair de um pequeno transe.


Foi do nada quando Saketsu sentiu um forte enjoo, que o fez cambalear para trás. Sua cabeça então começou a doer com uma intensa enxaqueca. Estava se sentindo muito estranho, mal.


— Ô, maluco, vai escapar não, passa seus bagulhos aí logo! — Se adiantou até o garoto que não havia feito nada além de se afastar apenas alguns passos ao debruçar de dor.


Sentia como se começasse a perder posse de seu corpo, e sua consciência também parecia estar fugindo de si, assim como seus sentidos. Com sua visão turvando cada vez mais, a última coisa que acabou vendo foi o chão vindo ao seu encontro.


Saketsu havia desmaiado. Os assaltantes, em vez de tentarem socorrê-lo ou ao menos conferir se ele estava bem, aproveitaram e se aproximaram para fuçar nos bolsos dele, checando e pegando tudo o que tinha de valor.


— Hehe. Que otário!


— Olha! Achei um celular!


Um deles, ao garantir que não tinha mais nada, acabou notando um vulto que foi para trás de si. Ao virar não viu nada, mas uma certa estranheza começou a pairar no ar.


— Foi só eu ou vocês também viram?


— Caramba, que frio é esse? — reclamou o outro, sentindo um inexplicável arrepio desconfortante.


— Vamos vazar daqui — um outro apressou.


Seguiam, quando o que estava mais à frente parou de súbito.


— Mano, algo me tocou!


— Do que você está falando?! Bora, Zé! — disse um tanto nervoso, ao lado dos outros dois que também haviam parado.


Algo certamente estranho estava ocorrendo, algo que eles não compreendiam, mas que fazia o instinto do medo despertar, levando o corpo a paralisar. O que estava mais à frente passou a não mover mais um único músculo e não falou mais nada.


— Tá enrolando aí por quê?! — perguntou o comparsa se aproximando.


Bastou uma pegada deste no ombro e, para a surpresa dos três, o corpo caiu para trás, mostrando ao atingir o chão os olhos desfocados, a boca entreaberta e um grande ferimento no torso.


— Ele tá morto? — um perguntou espantado.


— Como vou saber, mermão?! — respondeu o outro, totalmente pálido.


O terceiro, por sua vez, se agachou próximo para conferir o estado do comparsa. O cadáver parecia ter recebido um corte profundo, o que, com certeza, foi o que o levou à morte. Mas era estranho como isso aconteceu, afinal ninguém simplesmente é atacado assim do nada.


Este terceiro, ainda distraído enquanto olhava para o rosto sem vida, ouviu o grito repentino dos outros dois ao seu lado, notando em seguida um jorrar de sangue.


Se levantou assutado e recuou, mirando aquela visão horrível. Seus dois parceiros haviam recebido cortes no corpo, como se fosse uma grande besta voraz que os tivesse atacado.


Ainda focado naquilo, percebeu algo na densa poça de sangue dos corpos caídos, como se estivesse sendo pisada por algo que se aproximava.


Era surreal, o marginal percebia que se ficasse mais tempo ali acabaria igual aos outros, só que, na tentativa de fugir, viu algum tipo de vulto passando rápido ao seu lado e, no outro instante, sentiu estar sendo barrado por alguma coisa.


Mesmo que não conseguisse ver, podia afirmar que tinha algo invisível à sua frente, uma pessoa, que não perdeu tempo de fincar sua mão com garras bem no meio do peito dele.


Não teve nem tempo de sentir dor, foi movido de forma violenta e prensado no muro ao lado.


A coisa permanecia o segurando com a mão ainda presa dentro de si.


A consciência do marginal se esvaía, sabia que era a morte chegando, e à medida que ela ia se aproximando, a coisa invisível ficava mais nítida, mostrando a imagem de um garoto de escuros cabelos rebeldes e pele clara que estava manchada de sangue, vestindo as mesmas roupas daquele que acabara de assaltar.


A grande diferença entre este e o garoto que ainda permanecia desmaiado no asfalto era um pedaço de chifre negro saindo em um lado de sua testa, garras de mesmo tom, diabólicos olhos vermelhos sem um pingo de compaixão e um sorriso perverso, que sentia um intenso prazer em causar toda essa dor.


E foi com essa imagem que o marginal morreu, perdendo sua vida sem saber direito o que aconteceu.


***


Os olhos do garoto se abriam de forma que sua visão ia focalizando aos poucos o anoitecido céu estrelado à sua frente.


Saketsu sentou-se bastante indisposto. Raciocinava o porquê de estar ali, caído no meio de uma rua escura, e, quando menos percebia, olhava para um cenário sanguinário, com entranhas para todo lado, resultado de quatro delinquentes que haviam sido impiedosamente massacrados.


Sentindo uma enxaqueca, as lembranças do tal momento começaram a vir mais claras, junto ao pânico em seu rosto.


Ele havia mesmo feito tudo isso? Não... Não podia ser…


No entanto, mesmo que negasse, as provas estavam diante de si. Lembrava de cada movimento que fizera, de suas mãos com garras escuras os estraçalhando com vontade.


Ficava apavorado, começava a não saber o que fazer. O que seria de sua vida agora que era um assassino?


Pensamentos perturbadores começavam a dominar sua cabeça, porém o que acabou quebrando esse inferno mental foi notar Ukyi mais a frente, o mirando com seus reluzentes olhos vermelhos no meio das sombras.


— Ukyi ... O que eu faço? — perguntou Saketsu, assustado consigo mesmo, clamando por qualquer coisa que pudesse lhe aliviar.


— Não hás nada a se fazer, Saketsu. O inevitável aconteceu, apenas aceite e prosseguimos — respondeu o felino.


— Como assim "inevitável"?


— Naturalmente, cedo ou tarde tu acabaria tendo de passar por isso, isto és ser um glasbhuk.


— Eu não estou entendendo… — Saketsu estava se desesperando.


— Teu poder és de origem trevosa, os glasbhuks têm a tendência de se sucumbirem ao que chamam de “mal”. Tuas chamas negras que manifestastes até o momento não são cinco porcento da tua obscuridade. Uma hora o elemento trevas dentro de ti começaria a vos corromper.


— Ukyi... para... eu não sei o que está dizendo... mas não quero ouvir... — Saketsu entendia muito bem o que as palavras de Ukyi diziam, sim, porém não queria aceitar o que, no fundo, sabia que era a verdade. Não queria ser o monstro que sabia que sempre foi.


— Aceitais o fato. Lutar contra tua natureza é lutar contra quem tu és, e lutar contra quem tu és é lutar contra a vida, contra tua existência.


— Então está certo que eu deveria morrer.


— Se és isso que tu acreditas e quer, então és.


É isso então, é aqui que eu deveria terminar — dizia com um quê determinado, porém decidia que não era a hora. Com dificuldade, começava a tentar se levantar. — Só que ainda tenho algo para fazer, eu preciso acabar com o maldito do Dracarys antes.


— Tudo bem. De qualquer forma, eu não permitiria que tu morresses, não ainda.


— Por quê?


— Meu dever é proteger-te, mesmo que nem eu saiba o porquê. Devo guiar-te, mesmo que no meio disso às vezes eu deva lhe deixar lidar sozinho com as coisas, pois só assim tu conseguirás se reerguer apoiando em tua pura determinação, que é o que te farás mais forte.


— É sério que você vai vir com papo motivacional agora, Ukyi?


— Apenas quero que entendas que enquanto tu mesmo se ajudar, eu lhe ajudarei, e assim tudo irá colaborar para o bem maior. Eu sou teu suporte, teu guia espiritual, e agora sinto que devo te guiar até Dracarys, se esta for tua vontade. Tu se sentes pronto?


— Como nunca. — Saketsu firmou um olhar rancoroso de determinação.


Assim, começaram a seguir, com Saketsu pegando apoio na parede ao seu lado enquanto ia recuperando as forças.


As intenções de Ukyi nunca eram claras, ele nunca demonstrava emoções e muitas vezes falava as coisas de forma abstrata. Mas Saketsu sentia que podia confiar nele, começava a


entender que nos momentos em que pareceu não receber ajuda, na verdade não era bem assim.


Ukyi não era o tipo de espírito que ajudava pegando na mão, e sim parecido com um adulto que deixa a sua criança que ainda engatinha se virar para aprender a andar, deixando com que ela caia, aprenda a se levantar e assim se fortaleça, contudo estando sempre por perto, pronto para dar apoio caso algo de muito ruim aconteça.


Ukyi era capaz de sentir a aura diferente de Dracarys e com isso conseguia localizá-lo muito bem, Saketsu podia ter certeza que estava sendo levado para o lugar certo, o lugar onde pretendia descontar todo o aprendizado e amadurecimento causado pelo sofrimento da vida.