Fantasma Sombrio Capítulo 20

 


Capítulo 20

Vitória indesejada


Saketsu ficou meio sem reação ao atender a porta, no fundo infeliz por não ser Lana, mas não parecendo tão mal graças ao ar de surpresa que estava tendo enquanto via a garota com quem passara o dia de aula e que pôde perceber que ela não era tão má assim.


— Me desculpe por estar te incomodando a esta hora — disse Aine, tímida, retirando algo de sua bolsa —, é que este livro é seu... Acabei o pegando sem querer.


Saketsu examinou o livro na mão, abriu-o e reparou que seu nome estava na parte de trás da capa.


— É, realmente é meu.


— Então... Não sei onde está o meu... Acho que acabamos trocando sem querer... Talvez esteja com você…


— Será? Vou dar uma olhada. Entre, fique à vontade. — Convidou-a se afastando para o lado para ela passar.


— Obrigada.


— Minhas coisas estão lá no quarto, vou lá pegar, então sente se quiser. Já volto — disse após fechar a porta, e saiu às pressas, subindo para o quarto.


Aine havia se sentado toda reta no sofá, soando um pouco nervosa.


Não demorou um minuto, Saketsu voltou.


— É, realmente nossos livros foram trocados. — Trazia o dela em mão. — Aqui está o seu. — Obrigada — Aine agradeceu ao se levantar e pegar, sorrindo.


Saketsu sorriu de volta e se virou indo à porta. Aine vinha, as mãos atrás mexendo em sua saia.


— S... Saketsu... — ela chamou, de um jeito tímido e suave.


— Sim? — Se virou para olhá-la, curioso.


— É que... eu tenho algo a dizer para você…


— Pode dizer.


— E... Eu... amo... você... — parecia lutar para tirar as palavras para fora.


No instante em que ouviu, Saketsu corou tanto quanto ela. Ficou sem reação; o que poderia responder depois de ouvir tal coisa?


Aquela linda garota estava mesmo se confessando a ele?


De qualquer forma, Saketsu começava a enxergá-la com outros olhos.


Parando para ver melhor, Aine era realmente bela, e vê-la envergonhada desse jeito era atraente demais. Como nunca percebera o quão linda ela é?


Com uma mão para trás, a outra Aine usava para começar a desabotoar sua camiseta.


Ela se aproximava de forma que deixava Saketsu totalmente sem reação. Não conseguia tirar os olhos dela.


À medida que Aine vinha para cima de forma toda sedutora, Saketsu acabou sendo levado sem perceber para trás, até bater as costas na porta.


Embora estivesse nervoso, ele queria aquilo. A cada centímetro que ela ficava mais perto, o fazia pensar o porquê de não tê-la aceitado de uma vez antes. Ela era deslumbrante. Já que Lana não o queria mais e ainda o desprezou, dane-se ela, Saketsu não precisava dela.


— Você não fugirá de mim, Saketsu... — dizia baixo e calmamente. — Fui eu quem troquei os livros, e usei a história para vir te ver... — Levou sua mão até a nuca dele, o puxando para bem perto de seu rosto. — Eu te amo, Saketsu…


Saketsu neste momento não conseguia pensar em mais nada, já estava entregue de corpo e alma a ela. À medida que seus lábios estavam prestes a tocar, sentia seu coração palpitar cada vez mais, no entanto percebeu algo prateado vindo rapido em sua direção.


Por puro instinto e reflexo, Saketsu desviou a cabeça para o lado e evitou o ataque que não o atingiu por muito pouco, não perdendo tempo em passar por baixo do braço de Aine que tentou cercá-lo contra a porta.


Ao se distanciar, observou mais claramente: Aine havia fincado com tanta força uma faca onde ele estivera há um instante, que até cravou na madeira, não sendo por muito pouco sua cabeça.


Mas o que significava isso? Por quê?


— Por que tentou me matar, Aine?! — perguntou para a garota que permanecia parada após a tentativa homicida, a faca ainda presa na porta.


— Hum? Como assim? — Virou o rosto para olhá-lo, agindo totalmente desentendida. — Alguém te mandou, não foi?


— Do que está falando, Saketsu? Eu te amo, nunca faria…


— Diga logo!


— Ninguém me mandou... — respondeu em um tom sutil, fazendo leves movimentos para tentar tirar a faca entalada na madeira.


— Não, alguém te mandou, senão não teria se dado o trabalho de tentar me seduzir esse tempo todo só para tentar me matar! — Saketsu sentia-se frustrado, traído e manipulado. Ela o fizera de bobo. Perdera Lana por culpa dela! — Foi o Dracarys, não foi? — presumiu já com uma certa convicção.


— Ninguém me mandou... Saketsu. Isso que acabou de acontecer foi só um mal-entendido. Na verdade, eu estava só brincando... Eu te amo, Saketsu. — Vinha lentamente em direção a ele depois de recuperar a faca, de modo que entregava sua intenção em querer assassinar.


— Se afaste! — Se distanciava o mesmo que ela vinha, sem tirar os olhos dela. — Mas... — Agora ela parecia magoada.


— Já disse para se afastar!


— Eu só quero mostrar meu amor... MORRA, SAKETSU SURA! — Avançou com um grito assustador.


Saketsu desviou ao dar um passo para trás, não tendo seu peito rasgado por milímetros pela faca que passou feroz à sua frente.


Não pensou duas vezes em sair dali. Adentrou a cozinha, sendo seguida por Aine que era rápida também. Ela lançava vários cortes no ar, com movimentos carregados de vontade de acertá-lo.


— Morra! Morra! Morra! Morra! Morra! Morra! Morra! Morra! Morra! Morra... — Agia insanamente.


Saketsu não sabia o quanto mais conseguiria escapar. Se perguntava sobre o que tinha acontecido com a bela e tímida garota loira, que agora era uma psicopata descontrolada. 


Quando virou as costas para subir os degraus para chegar ao seu quarto, logo sentiu sua perna ser puxada, o levando a tomar um tombo.


Aine o segurava com um sorriso vitorioso, prestes a esfaqueá-lo. Por impulso, Saketsu a chutou no rosto, a fazendo cair para trás.


— Aine! — exclamou preocupado ao corpo dela não se mexer após dar um capote e parar no piso, mas foi só por um instante.


Ela se recobrava motivada a continuar agindo. Saketsu decidiu sair logo dali. Subiu os outros poucos degraus e entrou em seu quarto, trancando a porta em seguida.


Agora estava seguro — pelo menos neste momento. Se afastou sem tirar os olhos da porta, queimando os neurônios para tentar entender o que estava acontecendo.


Depois de alguns segundos encarando a porta, notava algo muito errado: não se ouvia um som sequer do outro lado. Será que Aine havia finalmente desistido e ido embora?


Receoso, começou a se aproximar da porta para checar.


Encostou seu ouvido para tentar ouvir melhor, e assim concluiu que estava um completo silencio do outro lado. Colocou a mão na maçaneta e começou a girá-la, bem devagar.


Tinha certeza de que ela não estava logo atrás, o esperando, pois não ouvia sua respiração e tampouco sentia sua presença, mesmo assim abriu a porta rapidamente, preparado para enfrentar o que fosse caso estivesse enganado.


Para o seu alívio, ela de fato não estava ali. Botou a cabeça para fora e olhou para confirmar melhor.


Mas se ela não estava ali, onde será que estaria?


Sua pergunta logo foi respondida. Começou a ouvir um pequeno som vindo atrás de si, estalos e ruídos.


Se virou e viu dedos de duas mãos na parte inferior da janela, pegando apoio para subir. Logo dava para ver cabelos loiros emergindo.


— Você não conseguirá fugir, Saketsu — disse Aine, revelando uma expressão insana e assustadora.


— Mas como?! — Olhava incrédulo, impressionado por ela ter subido até a janela do segundo andar pelo lado de fora, onde não havia quase apoio algum!


— Eu deixei um vazamento de gás no andar de baixo — disse ela, quando já havia pulado para dentro do quarto e se movia lentamente em direção a Saketsu, ainda com a faca em mão —, você não conseguirá passar por lá sem ao menos se intoxicar, e caso consiga chegar lá, irá morrer explodido. — Mostrou a chama de um isqueiro próximo ao rosto que havia tombado para o lado com um sorriso doentio.


Saketsu se via em fogo cruzado. Nem pensava mais em querer fugir, e sim em entender o que estava realmente acontecendo.


Desde quando Aine, a garota tímida e atraente, era esse monstro que estava bem à sua frente? O que realmente estava a levando fazer isso? Era claro que ela estava totalmente fora de si, parecia ter em mente somente o objetivo de matá-lo, mas por quê?


— Depois que eu matar Saketsu Sura, “ele” irá ficar comigo... — dizia como uma neurótica demasiada apaixonada, se aproximando com a faca empunhada na mão. — Eu serei só “dele”…


O que ela estava dizendo? Ou melhor, de quem ela estava falando?


— E quem ousar chegar perto do meu Dracarys, morrerá também! — completou ela. — Dracarys! Então quer dizer que é mesmo culpa daquele maldito?!


Aine, sem mais se segurar, avançou com tudo contra Saketsu. Este conseguiu reagir por muito pouco. Levou um corte na bochecha, mas conseguiu fazer com que Aine passasse por si e saísse do quarto. Ao invés de trancá-la para fora, avançou até ela, prensando-a contra a parede do corredor, desabilitando os movimentos e fazendo com que ficassem cara a cara.


— Escute, Aine! Pare, você não precisa fazer isso, não por ele! Ele não é quem você pensa que é!


— Cale-se, Saketsu! Não ouse falar do meu amor assim! Eu vou te matar! — Aine tentava reagir com unhas e dentes, parecendo uma fera raivosa que Saketsu mal aguentava conter.


— Não, Aine! Por favor, me ouça! Pare! Ele só está te manipulando!


— Você não sabe de nada!


— NÃO ESTRAGUE SUA VIDA POR CAUSA DE UM LIXO COMO ELE! — gritou com todo o ar que havia em seus pulmões.


Foi o suficiente para Aine escutar, e pareceu surtir efeito, já que, após, ela relaxou por completo. Sua força se esvazia como se tivesse perdido a vontade de agir. Seus olhos começaram a tremer, mostrando que a emoção que estava submersa nas profundezas de seu íntimo vinha à tona, a levando a se espantar consigo mesma ao perceber o que estava fazendo.


Sua mão, que segurava a faca e estava presa pela de Saketsu contra a parede, se afrouxou, logo sendo solta após ter sua faca retirada.


— Você está bem? — Saketsu perguntou preocupado.


Ela não respondeu, estava chocada demais.


— Aine?


— Saketsu, se afaste — ela o interrompeu. — Se afaste, senão... eu... irei…


Desprevenido, Aine acabou recuperando sua faca com um movimento rápido da mão de Saketsu. Este se afastou para dentro do quarto, e Aine avançou para cima, em uma nova onda de ataques.


— Eu... não consigo mais parar! — Ela vinha, tentando acertá-lo a todo custo. Porém algo estava diferente desta vez, parecia que seu corpo se movia contra a sua vontade


Era aparente que ela não queria fazer aquilo, mas não conseguia se controlar. Lágrimas saíam de seus olhos.


— Por favor, Saketsu, acabe comigo! Eu não quero mais fazer isso! Eu percebi que você não é uma pessoa ruim! Eu não sei por que prometi fazer isso! Eu quero parar, mas não consigo! Me ajude!


Implorava em desespero enquanto continuava a sua tentativa de assassinar. Saketsu apenas fugia dos ataques, percebendo tudo aquilo que ela estava sentindo, pensando no que poderia fazer para ajudá-la, mas nada vinha à mente.


Nesses movimentos instintivos, só foi perceber que saiu para fora do quarto novamente quando sentiu bater na parede atrás de si. Se via cercado. Aine aproveitaria a chance e daria um ataque certeiro, mas…


Ela se aproximava agora em passos lentos e o corpo decaído, aparentando estar perdendo as forças, parando bem ao lado de Saketsu, encostando a testa na parede, com a mão tremeluzente levantando a faca à altura do peito dele, chegando a encostar a ponta que afundava a superfície da roupa.


— Me desculpe…


— Aine... você não tem culpa de nada, é tudo culpa daquele maldito que te manipulou — disse sério, com o olhar fixo para frente, segurando calmo com as duas mãos a mão de Aine que estava a um fio de cumprir o objetivo ao qual fora ordenada.


Aine deu um leve e sincero sorriso. Isso chamou a atenção de Saketsu.


— Você é uma boa pessoa. Talvez eu tivesse me apaixonado de verdade... Só queria ter te conhecido em outra circunstânc…


Antes que Aine pudesse terminar, seu corpo perdeu as forças que restavam, junto ao brilho de seus olhos.


Saketsu percebeu a estranheza e tentou segurá-la, mas foi tarde demais, ela pendeu para o lado e rolou escada abaixo.


Tentou ir atrás para ajudá-la, mas antes de descer um passo, se paralisou com a visão horrível ao fim do degrau.


O corpo de Aine estava caído de bruços, totalmente imóvel, mas o mais perturbador era que ela estava sobre uma poça de sangue, o próprio sangue, que vazava através do ferimento causado pela faca que havia penetrado bem na garganta.


A queda havia resultado nisso. E pelo que se via, era certo que ela estava morta.


Saketsu mesmo assim desceu rapidamente para tentar socorrê-la. O cheiro de gás estava tão intenso, que mal conseguia ficar por ali sem tapar a respiração.


Os olhos de Aine estavam abertos e sem vida, o chão se encharcando ainda mais com seu sangue. Era uma visão espantosa, e um destino cruel que com certeza ela não merecia.


Com uma expressão assustada, Saketsu não sabia o que fazer, e nem o que sentir direito. Uma mistura de remorso, culpa e raiva começava a se formar dentro de si. Sabia que ela morrera por sua causa.


Nessa tortura de pensamento, de repente notou algo escuro se formando sob Aine, uma estranha poça de sombra. E para piorar a situação, algo começava a sair da escuridão, sendo mãos ligadas a antebraços em pele e osso, que se levantavam ao redor da garota e se agarravam no corpo dela.


Pasmo e sem saber o que fazer diante a tal fenômeno, Saketsu apenas continuou observando o corpo de Aine sendo puxado por aquelas bizarras mãos obscuras, sumindo completamente para dentro da poça, restando por fim somente a substância, que começou a se comprimir, pouco a pouco, até desaparecer por completo.


Era tarde demais quando Saketsu percebeu que deveria fazer algo, qualquer coisa, mesmo que já não tivesse mais o que ser feito. O corpo de Aine havia sido levado, e não se sabia para onde e por que.


Pendeu de joelhos no chão ao sentir sua perna fraquejar, não sabia se por cansaço ou por profunda decepção.


Tivera uma vitória contra a morte, mas teria escolhido perder se soubesse que terminaria assim.


O espanto ainda permanecia o mesmo, tudo fora tão rápido que não sabia direito o que tinha acontecido.


Aine morrera, e ninguém saberia de sua morte pois seu corpo fora levado por algo totalmente desconhecido, e se Saketsu contasse o que vira, ninguém iria acreditar, talvez nem mesmo seus amigos.


Mas pelo menos sabia muito bem quem tinha a maior parte da culpa nisso tudo: Dracarys! Só de pensar nesse nome seus punhos fechavam com completa raiva.


Decidido que não deixaria nada disso passar batido, Saketsu levantou-se e foi até a porta, abrindo-a com ferocidade. Pretendia sair, iria atrás de Dracarys, mesmo não sabendo onde ele estaria. Iria caçá-lo a qualquer custo e fazê-lo pagar por tudo, iria destruí-lo mesmo que tivesse que dar a vida por isso!