O Caminho de Asura Capítulo 11



Capítulo 11

Até o Seu Fim


— Você deve ter feito um plano bem elaborado para me derrotar. — Cassiel falou.


— Não é tão complexo quanto imagina. — Asura respondeu.


— Onde está a garota?


— Em algum lugar por aí.


— Humm… Belas runas. Nas árvores, no chão, em todo lugar praticamente — disse dando uma olhada nos arredores.


— Não deveria ter um “praticamente” nessa frase.


— Perdão. Em todo lugar.


— Emblet!


Três esferas flamejantes foram disparadas a partir das árvores em direção a Cassiel, que não teve dificuldade para desviar.


— Até que não demorou. — O paladino comentou.


— Armior!


Asura arremessou o machado que então foi pego por Cassiel.


— Conseguir encurtar a palavra-chave de um padrão rúnico sem alterar o efeito é um grande feito.


— Rokda!


O machado se debateu na mão do paladino, tentando retornar para seu dono.


— Que os apóstolos da luz matem você!


Os doze seres brilhantes surgiram e partiram para cima de Asura.


O jovem, por sua vez, sacou uma faca.


Não era muito grande, tinha um cabo vermelho curvo e uma abertura redonda no fim dele, possuía uma lâmina de dois gumes e uma linha dourada que a cruzava.


Além disso, é claro, runas. O símbolo especial do atributo estava gravado na lâmina da arma, junto da palavra “Raidril”.


Essa era a faca Azrok.


— Vejo que aproveitou bem o tempo que lhe dei. — Cassiel falou.


Os três primeiros apóstolos alcançaram Asura.


— Congele!


Ao grito de Asura, a lâmina cinzenta de Azrok mudou de cor, tornando-se azul claro.


O primeiro apóstolo surgiu à direita do jovem, levantou sua perna e lhe acertou um forte chute no peito.


Asura deu um passo para trás e viu de canto de olho o segundo e terceiro apóstolos lhe encaminharem golpes.


— Hakio! — O rapaz gritou.


Uma runa brilhou no chão e então explodiu, liberando uma nuvem de chamas que envolveu Asura e os outros três apóstolos.


— Rargar!


Parte das chamas que estavam para se dispersar no ar se acumularam no punho direito do jovem, que então aplicou um soco no rosto do segundo apóstolo, fazendo com que ele desaparecesse.


O som de fortes pancadas e algo crepitante se ouviu pouco antes da cortina de chamas sumir.


— Tenho fé que esta será a minha primeira batalha desafiadora em anos. — Cassiel falou.


Asura segurava o primeiro apóstolo pela cabeça. No pescoço do ser brilhante Azrok estava cravada, e a partir dela uma camada de gelo se espalhava pelo corpo dele.


E o terceiro apóstolo estava jogado no chão, desaparecendo.


— Asura, atrás de você! — A voz de Raven veio da mata.


Asura arrancou Azrok do pescoço do primeiro apóstolo ao mesmo tempo em que decepou a cabeça do mesmo e se virou para trás.


O sexto e oitavo apóstolos estavam a dois metros de distância.


Antes que os seres brilhantes fizessem algo, ele tomou a iniciativa.


Asura se aproximou do sexto, se agachou enquanto a perna do último passava por cima de sua cabeça e cravou Azrok nas costelas esquerdas do apóstolo.


Enquanto gelo se espalhava pelo corpo do sexto, o oitavo se movimentou, aproveitando-se do movimento do rapaz, ele levantou sua perna direita ao alto e a desceu sobre o crânio dele.


— Chamas Súbitas!


O corpo do jovem desapareceu em meio ao fogo e então o chute do apóstolo desceu, entretanto errou, e tudo que conseguiu fazer foi dispersar parcialmente as chamas e atingir o chão.


À um passo de distância pra direita de onde o ser brilhante acertou Asura emergiu das chamas, ele investiu com a faca em mãos e a cravou no crânio do oitavo.


—  Que os apóstolos retornem.


Ao comando de Cassiel todos os apóstolos restantes voltaram para perto dele.


— Mande-os atacar. Está ficando frio e logo deve chover, não quero ficar aqui a noite toda.


— É claro… Um segundo.


Cassiel inclinou sua cabeça para trás e viu uma bola de fogo passar em frente ao seu rosto.


— Não o deixe falar! — A voz de Raven veio de outro local da mata.


— Que os apóstolos…


— Camclet! — Asura interrompeu o paladino.


Ao comando do jovem, Rastaross que ainda estava nas mãos de Cassiel se moveu rapidamente em direção ao rosto do mesmo.


Mas foi parado pelo nono apóstolo, que o agarrou.


— Rokdavier!


O machado que antes insistia em continuar avançando para frente mudou de direção e foi de encontro com o rosto do nono, partindo-o ao meio.


— Esse machado…


Cassiel segurou a arma e lhe deu uma joelhada em seu cabo, dividindo-o em dois e fazendo com que as runas de rastaros que ali estavam fossem desativadas.


— Beloir!


— Haftr!


Asura lançou uma pequena bola flamejante e Raven disparou seis esferas de fogo.


Mas os ataques não alcançaram o paladino rápido o suficiente.


— Que o quarto apóstolo da luz seja iluminado!


Um relâmpago branco cortou os céus e desceu de encontro ao quarto apóstolo, iluminando dezenas de quilômetros a fio e atingindo o ser brilhante.


A descarga elétrica entrou no corpo dele e então desapareceu.


O apóstolo levantou sua cabeça, direcionando seu olhar a Asura.


“Não o deixe acertar você!” A voz de Askhalon ressoou na mente do jovem.


O quarto desapareceu de onde estava e então surgiu acima da cabeça de Asura, pronto para aplicar um chute que o dividiria em dois.


— Raidr!


O rapaz relaxou suas pernas, elevou sua mão que segurava Azrok e cravou a faca em seu ombro direito.


A perna do apóstolo pousou no ombro do jovem e foi levemente amortecida pela camada de gelo que ali se formava, mas ainda teve força o bastante para derrubar e afundar o corpo de Asura no chão.


— Argh!


— Lanvna! Lankna!


As serpentes elementais surgiram ao lado do ser brilhante e começaram a atacá-lo, levando-o também um pouco para longe.


Asura se levantou apesar de estar um pouco zonzo.


“O golpe dele deixou uma queimadura no meu ombro. Por quê?” O jovem perguntou a Askhalon.


“Porque ele é um poderoso ser da luz e você um fraco das trevas.”


“Graças a você.”


“O fato é que você é um ser da escuridão, e por não permitir que eu lhe ajude não tem defesa alguma contra a força de um ser iluminado. Se essa luta continuar da forma que está, você provavelmente irá morrer.”


Asura soltou um alto assovio e então partiu pra cima de Cassiel.


— Que o quinto apóstolo da luz seja iluminado!


Mais um relâmpago branco cortou os céus e dessa vez caiu sobre o quinto.


— Raitr!


Asura continuou mesmo assim, ele sacou Azrok e então a arremessou em direção ao rosto de Cassiel.


A faca foi interceptada antes que pudesse se afastar do jovem por mais de dois metros pelo quinto ser de luz, que surgiu ao lado dela e a agarrou.


— Rargar!


Entretanto, isso fazia parte do plano de Asura, que aplicou um direto flamejante no rosto do apóstolo, que por mais que não tenha conseguido derrubá-lo, foi o suficiente para atordoá-lo por um momento.


Uma pequena bola de fogo foi disparada do topo de uma das árvores nos arredores e acertou o pulso do quinto que segurava Azrok.


Asura levantou seu pé esquerdo e chutou no mesmo lugar que fora atingido pela bola de fogo, fazendo com que o apóstolo soltasse a faca, que logo foi pega pelo jovem e cravada no queixo do ser brilhante, que então foi congelado.


Fios de fogo surgiram amarrados às pernas do apóstolo e foram abruptamente puxados, tirando assim o equilíbrio do último.


— Rargar!


Asura deu mais um soco na cabeça do quinto, quebrando um pouco do gelo que a cercava, agarrou ela e a esmagou contra o chão.


— Raven!


— Lantna! Langna!


Duas serpentes apareceram ao lado do rapaz, uma que era feita de chamas que giravam como um tornado e tinha olhos amarelos brilhantes e outra que era feita de ventos giratórios que possuíam dois olhos azuis brilhantes.


Asura se ergueu, pegou Azrok e se moveu em direção ao paladino enquanto as cobras começaram a atacar o quinto apóstolo caído no chão.


— Que o sétimo apóstolo da luz seja iluminado!


Outro raio cortou os céus ao mesmo tempo em que Azrok se chocou com a espada de Cassiel, gerando um mar de faíscas.


— Então você descobriu a fraqueza dos apóstolos? — O paladino indagou enquanto forçava sua espada para frente.


— Sim. A fraqueza deles é você! — Enquanto forçava Azrok contra Cassiel, Asura agarrou Rastaross que ainda estava sendo segurado pelo cavaleiro.


O paladino então puxou sua espada para baixo, tentando se livrar do bloqueio do jovem, mas a faca acompanhou seu movimento.


— Os apóstolos são fracos porque não pertencem a você! — Asura deu uma cabeçada na cara de Cassiel e levou a disputa de lâminas um pouco para a esquerda enquanto puxava o machado para sua direita —  Você não passa de um escravo que vive por conta do constante empurro de outras pessoas. Isso faz dos apóstolos um reflexo da pessoa medíocre que é você. Eu posso ver a covardia em seus olhos, e nos deles também!


— Palavras vazias não iram me abalar!


O sétimo apóstolo surgiu às costas de Asura e lhe aplicou um chute que teria separado sua cabeça do resto de seu corpo se uma espessa parede de terra não tivesse se erguido entre eles.


Mas mesmo tendo algo perto de um metro de espessura rígida o pé do ser de luz ainda quase foi capaz de atravessá-la, faltando alguns poucos centímetros.


Um pequeno lagarto da terra então surgiu sobre a parede e fez uma expressão que lembrava muito um sorriso.


Garras surgiram nos dedos do apóstolo que logo retirou sua perna da parede e saltou para tentar pegar o pequeno lagarto marrom, mas o bichinho foi ágil e pulou da parede de terra ao mesmo tempo em que a fez se erguer por mais alguns vários metros, levando consigo o ser brilhante.


— Que a graça brilhe sobre mim! — A aura azul envolveu Cassiel.


Mas assim que o paladino estava para fazer seu movimento, uma pequena bola roxa caiu no chão ao lado de seu pé e então estourou, liberando uma densa névoa.


Cassiel sentiu que Asura estava atrás de suas costas e se virou, golpeando com a espada, mas tudo que fez foi cortar o ar.


— Que a graça da luz caia sobre mim! — A cor azul que cercava o paladino foi substituída pela cor dourada.


De repente o homem ouviu um som brusco e então viu a névoa se transformar em chamas e logo se dissipar sem causar danos a ninguém, revelando o que aconteceu um segundo atrás.


Asura estava a uns quatro metros distância de Cassiel. Em sua mão direita estava Azrok e na direita, Rastaross, com o cabo ainda mais reduzido que antes.


O paladino curvou seu olhar em direção à sua mão e então viu um pedaço do cabo do machado sendo congelado em sua mão.


— Da próxima vez que esse machado parar nas minhas mãos vou deixá-lo em pedaços. — O cavaleiro largou o pedaço de madeira — Que…


— Olhe bem para os lados antes de tomar uma ação. — Asura o interrompeu.


Cassiel parou por um momento e olhou para a direita.


Ele viu o quarto apóstolo sendo constantemente atacado pelas serpentes de terra e água e por vários lagartos.


Também pôde ver que o mesmo acontecia com quinto.


Olhando para a esquerda o paladino viu uma cúpula de terra que começou a ser quebrada de dentro para fora, mas que então foi cercada por uma camada de água. Ali estava o sétimo, lutando para escapar da contenção dos lagartos.


— Esses lagartos são bem fortes. Onde os achou? — Cassiel perguntou.


— Numa caverna.


— Que os apóstolos…


Assim que o paladino disse a palavra “apóstolos” Asura partiu pra cima dele, como se esperasse exatamente esse termo em específico.


— … matem os lagartos…


Cassiel brandiu sua espada e Asura golpeou com Rastaross estando a quase um metro de distância do homem.


— … e capturem a garota!


O choque entre as armas chegou, e ao som de metal se chocando, os três apóstolos que estiveram de lado até agora se dividiram, o décimo entrou na floresta, o décimo primeiro foi em direção à cúpula de água e o último foi de encontro com o quinto.


Asura largou dois assovios rápidos e seguidos ao mesmo tempo em que Cassiel gritou algumas palavras que foram sucedidas por mais um relâmpago branco que atravessou os céus e atingiu o décimo segundo apóstolo.


— Belodeir!


A lâmina de Rastaross entrou em chamas e então Asura estocou com Azrok visando o rosto de Cassiel, mas o paladino moveu suas mãos para cima, levando o embate de lâminas junto e fazendo com que a faca atingisse o machado e a espada.


— Droga! — O jovem pestanejou ao ver seu machado congelar.


Cassiel se aproveitou do momento, deu uma joelhada no estômago de Asura, agarrou Rastaross e chutou o jovem para longe, mas então viu que o rapaz levava a faca de gelo em direção à sua mão que segurava sua espada e sem outra escolha, largou a arma, desviando de Azrok logo em seguida.


— Essa faca não só congela, mas também tem a capacidade de fragilizar e fortalecer aquilo que for coberto por seu gelo. Por isso que você não teve o ombro quebrado pelo quarto apóstolo e também é por isso que esse machado já era!


O paladino segurou a lâmina de Rastaross em frente ao seu peito e começou a esmagá-la, forçando uma mão contra outra.


O gelo estalou e logo quebrou. Rastaross foi reduzido a estilhaços, deixando para trás somente parte de seu cabo inteiro.


— Pois é.


Asura havia pego a espada do paladino e agora segurava ela em mãos.


— Rargar.


Bastou um golpe para que a espada congelada se transformasse em pedaços.


— Eu diria que é justo. — Cassiel sacou seu escudo.


— É, mas eu não gosto de jogar limpo. Katri!


Um desenho brilhou em um dos pedaços da lâmina de Rastaross e então começou a flutuar. Logo, todos as partes do machado avançaram em direção a Asura, reunindo-se em sua mão direita e formando a arma rúnica como se ela nunca tivesse sido quebrada.


— Então você criou aquela abertura de propósito para chegar a esse ponto?


— Sim.


— É genial como você consegue contornar seus problemas.


Asura sacou de seu bolso uma luva e começou a vesti-la.


— Gostaria de ter te conhecido em outra situação. Poderia ter feito de você meu pupilo.


— Ah, sim.


— Você não tem Versus para usar várias técnicas em sequência. Não tem para fazê-las mais fortes. Não tem mana para desenhar runas em maior quantidade e poder. Mas ainda consegue me enfrentar de igual para igual.


— A gente faz o que pode até poder fazer melhor.


— É realmente uma pena.


— É, sim.


— Que a graça brilhe sobre mim!


— Armior!


Asura arremessou Rastaross que então voou por vários metros e acabou atingindo a cabeça do décimo primeiro apóstolo.


O ser de luz estava ao lado da cúpula que agora era feita de metal tentando atacar os lagartos, mas os bichinhos eram muito espertos e unidos, conseguindo assim escapar do apóstolo trabalhando equipe.


— Que o décimo apóstolo seja iluminado!


Um raio cortou os céus e caiu no meio da floresta.


— Rokda!


Rastaross foi puxado de volta, mas passou direto por Asura que havia acabado de desviar de um soco de Cassiel.


O machado continuou por alguns vários metros até parar e começar a voltar para o jovem novamente.


Cassiel golpeou com seu escudo várias vezes em sequência, quebrando a defesa de Asura e agarrando seu pescoço.


Mas então foi obrigado a soltá-lo porque Rastaross estava prestes a atingi-lo


— Asura! Socorro! — Os gritos de Raven vieram de onde o décimo apóstolo estava.


— Armior!


O machado novamente passou direto, indo em direção a Raven dessa vez.


Na floresta, o décimo apóstolo pisou sobre um tronco oco e de dentro dele saiu um grito de Raven.


O ser de luz então atravessou a madeira com as mãos limpas, arrancou a parte de cima do tronco e olhou a parte interna.


Mas não tinha ninguém ali, exceto um pequeno lagarto branco.


— Aaaahh! — O bichinho abriu sua boca e soltou um grito que tinha exatamente a mesma voz de Raven.


Antes que o apóstolo pudesse fazer algo, dezenas de fios de fogo surgiram amarrados ao seu pescoço. Nas árvores ao seu redor vários lagartos se revelaram, alguns amarravam os fios aos galhos e outros tocavam as linhas que ainda estavam apagadas, incendiando-as.


— Um pouco pra direita, galera! — Raven surgiu em cima de uma árvore e ordenou.


Os lagartos então puxaram os fios, fazendo o apóstolo dar dois passos para a direita.


— Agora puxem!


Todos os lagartos puxaram as linhas ao mesmo tempo, apertando-as ainda mais forte no pescoço do apóstolo.


Foi então que Rastaross surgiu e atravessou a nuca do ser brilhante, decapitando-o.


— Rokda!


O machado logo foi puxado de volta e Raven correu em direção ao quarto apóstolo.


Rastaross voltou à mão de Asura.


— Camblet!


O jovem desviou de um ataque de Cassiel e largou o machado, que então voou em círculos por um metro, ficando às costas do paladino.


— Rokda!


A arma bateu nas costas do homem e começou a tentar atravessá-las.


— Argh!


Cassiel girou seu corpo um pouco para a direita, deixando Rastaross passar, retornando para as mãos de Asura.


Com o machado em mãos o jovem girou seu corpo no sentido anti-horário e então arremessou a arma em direção ao rosto do paladino.


— Armivier!


Rastaross tomou um grande impulso e acertou de raspão a bochecha do cavaleiro que só desviou porque a aura azul ainda o cercava, aprimorando sua velocidade.


Asura assoviou três vezes rápidas e logo um lagarto roxo se desenterrou no chão.


— Rokdavier!


— Que a graça da luz caia sobre mim.


Assim que o machado começou a voltar a defesa de Cassiel se fortificou e ele resolveu dar seu ultimato.


O paladino se virou para o jovem, ignorando Rastaross, e golpeou com seu escudo. Um ataque esmagador.


Mas o queixo do homem quase foi ao chão quando seu escudo atravessou o rapaz e ele se desfez. Era uma ilusão.


— Hakerein Gakê!


Asura estava acima da cabeça de Cassiel. Em sua mão uma esfera laranja que soltava faíscas se formava.


Sob os pés do jovem, esferas de fogo surgiram e o impulsionaram para baixo.


Cassiel apressadamente tentou se defender do ataque. Apesar de confiar em suas próprias habilidades, não havia como saber o que essa técnica poderia fazer.


O golpe atingiu o escudo e então se comprimiu. Ao mesmo tempo, Rastaross atingiu as costelas do paladino.


Ao som de metal sendo retorcido, Cassiel foi arremessado para alguns metros de distância e o machado voltou a Asura, que caiu no chão.


— Pela luz… O que foi isso? — O paladino se pôs de pé. Ele não tinha ferimento algum.


— Um teste… — Asura se levantou com dificuldade. A luva que ele tinha colocado anteriormente fora destruída e havia um grande ferimento sangrento na palma de sua mão.


Cassiel olhou para seu escudo. Havia um buraco no centro dele.


— Apesar de não ser o escudo mais forte que já empunhei, continua sendo extremamente resistente.


Implosão. Uma arte krygo criada pelo próprio Asura. Causava um alto dano concentrado, algo que afetava até mesmo o jovem.


— Com isso você realmente me surpreendeu. — O homem largou o escudo mal acabado.


— Parabéns pra mim.


— E me colocou exatamente onde queria.


Cassiel olhou em volta. Ele estava a uns cinco metros do quinto apóstolo, que ainda lutava contra as serpentes e os lagartos.


Era nesta área que havia uma concentração maior de runas. E o paladino sabia que ele estar onde estava fazia parte do plano astuto de Asura.


— Se você diz.


— Que a desgraça do impuro caia sobre você!


Por um momento Asura ficou atordoado.


Ele olhou para a esquerda e viu Raven e os lagartos lutarem contra os apóstolos. Trabalhando juntos e usando as várias armadilhas rúnicas preparadas pelo rapaz eles estavam dando conta de segurar os seres de luz.


A boca da garota se mexia, mas Asura não ouvia nada.


O jovem então sentiu gotas de água atingirem sua pele.


— Surdo. A técnica me deixou surdo.


Asura voltou a realidade, mas era tarde demais.


Um cruzado de direita atingiu seu rosto e um gancho afundou seu estômago.


— Argh! Han…


Antes que o rapaz pudesse terminar de falar, a mão de Cassiel agarrou seu pescoço, tirou seu corpo do chão e o desceu com tudo, esmagando Asura no chão.


— Rargar!


Ele deu um soco flamejante no rosto do paladino, mas não foi efetivo.


— Hander!


Cabos de metal surgiram do chão e se amarraram aos braços de Cassiel, puxando-o para trás.


Assim que o homem aliviou a pressão em seu pescoço, Asura sacou Azrok de sua cintura e tentou cravá-la na cabeça dele, mas não conseguiu.


O paladino agarrou a mão do jovem, tomou a faca para si e a fincou no peito de Asura.


— Arh… Arh… — O jovem arfou enquanto o gelo se espalhava por sua carne.


— Que a luz te guie para o outro lado. — Cassiel foi sendo puxado pelos cabos enquanto o observava agonizar.


“Você vai morrer.” Askhalon falou.


“É.” Asura respondeu.


“Talvez eu possa te salvar.”


“Não.”


“Não se importa em morrer?”


“Fique quieto.”


“Isso é orgulho?”


— Coff! Coff! Argh… Aaah… — Asura sentiu uma enorme dificuldade em respirar.


“Olhe bem para mim. Agonizando, gritando de dor. Sentindo os pulmões e o coração sendo tomados por um gelo infligido em mim pela minha própria arma. Se eu não conseguir superar isso, não há porque continuar vivendo.”


“Eu irei fazer uma aposta. Vou ativar o fator de cura e torcer para que você se regenere.”


“Faça isso e eu me matarei.”


“Vou apostar que você não fará isso.”


“Eu vou fazer.”


Asura agarrou Azrok e a arrancou de seu peito.


— Aah…


Ele então ficou de joelhos.


— Rai… Raid… Ra…


O rapaz não se aguentou e se curvou, encostando sua cabeça no chão.


— Raidr!


Vendo o que Asura estava fazendo Cassiel começou a tentar se livrar dos cabos. Ele só ficaria tranquilo quando o cadáver dessa máquina de matar estivesse gelado.


“Você é meu inimigo e eu vou te matar algum dia, então preste bastante atenção no que vai acontecer a seguir.”


Asura cravou Azrok em seu peito novamente.


O gelo fragilizante começou a ser envolvido pelo fortalecedor.


— Chamas… Súbitas!


O jovem colocou sua mão sobre seu peito e fez com que um pequeno turbilhão de chamas entrasse pelo buraco e começasse a derreter o gelo.


— Yangil… Coff! Coff!


Pedaços de gelo e gotas de água começaram a sair do peito de Asura, sendo atraídos por sua mão.


Cassiel livrou um de seus braços e ficou de pé.


— Va…mos! Anda… Coff! Coff! — O rapaz tossiu e junto da tosse vieram estilhaços de gelo misturados com sangue.


O paladino deu passos em direção a Asura e acabou pisando em uma runa que então explodiu, mas não foi capaz de sequer atrasar ele.


O jovem retirou Azrok e junto dela saíram estilhaços de gelo e um bocado de sangue.


Cassiel estava a apenas um metro de Asura. Ele estendeu seu braço direito e logo alcançaria o garoto que estava de joelhos.


— Argh…


As chamas na mão que entravam em seu peito se apagaram e mais sangue jorrou.


— Agora…


Asura levantou a faca em sua mão e fez um pequeno corte ao lado do buraco em seu peito, criando uma camada de gelo que começou a se alastrar por seu tórax e que também cobriu o ferimento.


— Preciso ser rápido…


Quando o jovem levantou sua cabeça, tudo o que conseguiu ver foi a mão de Cassiel agarrar seu rosto.


O paladino o ergueu e então o esmagou no chão.


— Não há porquê prolongar esse sofrimento, morra de uma vez!


Asura novamente foi esmagado contra o chão.


“Essa defesa… insuperável...”


Mais um baque veio.


“Não há como quebrá-la.”


O homem mais uma vez bateu o crânio do jovem contra o chão e dessa vez continuou o forçando contra o solo.


“Mas…”


Sangue escorreu pelos ouvidos de Asura.


“... sempre há um jeito.”


Uma energia laranja faiscante envolveu a mão direita do rapaz.


“É aquela técnica…” Cassiel pensou.


“Versus…”


Faíscas surgiram ao redor do paladino.


“... é algo que está em todo lugar…”


E então o ar começou a ficar laranja. 


“... até mesmo dentro da sua defesa imbatível.”


Uma faísca apareceu em frente ao olho esquerdo de Cassiel.


— Hakerein Valir!


Tendo como epicentro o paladino, toda a Versus num raio de um metro implodiu e liberou uma onda de choque junto de uma cortina de fumaça.


“Você acabou de explodir a Versus no ar?” Askhalon indagou, atônito.


“Implodi… na verdade.”


Asura se levantou com grandes dificuldades. Apesar de que a implosão foca em um ponto específico, ainda libera muito dano nas proximidades, por isso o jovem saiu com alguns bons ferimentos mesmo que o ataque tenha focado em Cassiel.


A fumaça logo se foi e o olhar do jovem encontrou o paladino.


Ele estava jogado no chão. Sua aura dourada desaparecia lentamente.


Sua armadura estava surrada e ele possuía alguns poucos ferimentos do pescoço para baixo. Sua cabeça tinha graves queimaduras e seu olho esquerdo havia sido estraçalhado a ponto de ser difícil pensar que aquilo já foi um globo ocular.


Asura se aproximou do paladino.


— Ah… Que… — O homem tentou dizer algo.


O jovem não ouvia nada do que o moribundo tentava dizer, estava surdo afinal.


— Asura…


Cassiel foi interrompido por um soco. Asura ficou por cima dele e começou a socar seu rosto.


Sangue começou a voar.


Um, dois, três, cinco, oito murros e contando.


Asura sentiu suas mãos doerem. Elas já sangravam.


Ele sentiu a chuva bater em suas costas. Era gelada, mais que qualquer outra que ele já havia sentido.


Sentiu também estilhaços de gelo se desprenderem de seu peito. Ele estava voltando a sangrar.


“Me alivia um pouco saber que não te matei.” Cassiel pensou.


A pouca visão que ele tinha lhe permitia ver o rosto sujo de sangue de Asura vez ou outra entre os socos constantes.


“Era meu dever, meu juramento. Então eu fiz. Fui com tudo para te matar. Mas as palavras de Daran ressoaram constantemente na minha cabeça. Salvar pessoas e servir a luz? Salvar pessoas ou servir a luz? Talvez eu não tenha feito nenhum dos dois.”


Dezesseis, dezessete, dezoito…


“Mas eu parto sem arrependimentos. E espero encontrar paz no outro lado. Que a luz nos guie.”


Vinte e um, vinte e dois…


“Ah… e ei, Fera das Sombras…”


— As trevas não são… tão ruins… — O paladino falou com uma voz fraca.


Cassiel deu uma lenta e dolorosa piscadinha com seu olho direito.


— Rargar!


E então, o golpe final veio.


Cassiel se foi.


“Então era você, o pequeno paladino.” Askhalon se lembrou.


Asura tirou seu punho trêmulo e flamejante do rosto do homem e lhe encarou por um momento.


— Descanse em paz. — O jovem sussurrou.


“Konan, espero que você tenha conseguido o hospedeiro perfeito…” Askhalon teve um vislumbre do futuro.


Asura desmaiou, caindo para a esquerda.


“Você vai precisar.”