Fantasma Sombrio Capítulo 19

 


Capítulo 19

Separação e nova conciliação


O céu estava azul cobalto, prestes a anoitecer. Um clima gélido percorria pelas ruas estreitas em que Lana seguia vagarosa. Seus pensamentos eram tristes, tanto que sua expressão e seu jeito de andar entregavam a pura depressão.


Parecia que os sentimentos de dias atrás, que havia até esquecido e nunca pensara que sentiria-os novamente, voltavam mais intensos agora.


Sentia que não havia lugar no mundo para si. Sentia que o amor sempre tentaria fugir de si, não importasse o quanto tentasse agir e fazer as coisas diferentes para ter resultados diferentes. Mesmo mudando seu jeito de ser, a finalidade sempre seria a mesma.


Parou, olhou para o lado e começou a observar uma casa com um pequeno portão de grade. Aparentemente ela estava vazia já fazia dias; um silêncio e um ar melancólico pairava sobre ela, a antiga residência de Iuri.


— Iuri... onde você está?


Lana sentiu um aperto frio no peito, estava prestes a se afogar em lágrimas novamente.


De repente, sentiu algo tremer entre suas mãos. Era seu celular. Pensou que fosse Saketsu a ligando de novo, no entanto, quando viu a tela, se surpreendeu de forma que sua tristeza começava a se converter para felicidade; era seu pai quem havia mandado uma mensagem! Seu pai, a pessoa que ela não via e que não tivera nenhuma notícia já fazia um bom tempo!


A mensagem dizia que ele estava de volta, e que já estava em casa e esperava por ela. Isso era motivo suficiente para a alegrar Lana e fazê-la se esquecer completamente dos problemas, era a única pessoa que poderia realmente a fazer feliz no momento.


Às pressas, Lana começou a seguir rumo para a casa.


***


Sozinho em seu quarto escuro e em frente a claridade de seu computador, Saketsu navegava na internet, os fixos olhos à tela, porém sua mente em lugar outro lugar, que o fazia se sentir desanimado.


Então teve uma sensação estranha que o fez olhar rapidamente para o lado, percebendo que uma coisa rápida havia passado por ali, algo que não conseguiu identificar antes que se enfiasse para debaixo da cama.


Aquilo despertou suspeita. Saketsu levantou-se e, com receio, se aproximou para checar o que havia se escondido ali. Inclinou-se para olhar e, de repente, ouviu a porta do quarto fazer barulho enquanto se abria lentamente.


Ao mirá-la, viu que era Lana. Ela estava parada, com um aspecto assustador atribuído pela escuridão do ambiente.


Saketsu não dizia nada, apenas sentia estranheza por a ver parada daquele jeito


Lana então se moveu. Começou a se aproximar de um jeito calmo, despindo-se de seu uniforme escolar de maneira um tanto... "sedutora".


— Lana? — Saketsu ficava sem reação.


— Eu sou o que você está procurando aí embaixo, Saketsu…


Ela se aproximou. Saketsu sentiu o corpo nu dela o abraçando. Não que estivesse achando ruim, parte de si sempre desejara este momento, mas algo não estava certo. A pele dela estava mais pálida e gélida, mas ao mesmo tempo confortável, ao ponto de fazê-lo fechar os olhos e começar a se entregar.


Ao decorrer do contato, sentia o corpo dela abraçar mais intensamente, cada vez mais forte, um abraço que dava voltas por seu corpo o envolvendo por inteiro... Algo estava errado, era bastante desproporcional para o porte dela!


Quando percebeu o fato, Saketsu abriu os olhos para tentar reagir e sentiu um aperto bem mais intenso, como se estivesse sendo esmagado. Era tarde demais para fazer alguma coisa.


— Você me traiu, Saketsu... Mas mesmo assim eu te quero... — disse a voz dela, calma e sensual sibilando em seu ouvido.


Apesar da escuridão do quarto, Saketsu se via claramente envolvido do pescoço para baixo por uma grossa e escamosa mangueira negra, que o enrolava e o apertava cada vez mais.


Era doloroso, e a dor acompanhava o barulho dos seus ossos começando a trincar, tornando aparente que não demoraria para eles se moerem por completo.


Tentou se mexer, mas era totalmente inútil. O sufoco começava a tomar conta, ar não entrava, e o pouco que já estava dentro do corpo se mantinha preso no pulmão.


Foi então que notou uma cabeça aparecer do seu lado, sendo a da serpente negra que o abraçava de modo fatal, ela possuía olhos diabólicos completamente vermelhos e enormes presas na mandíbula, que se abria em uma proporção suficiente para engoli-lo inteiro.


A mandíbula se arreganhou mais ainda, até que, então, devorou-o com uma forte abocanhada!


Saketsu acordou se sentando rápido na cama, totalmente sem fôlego.


Olhou para os lados e logo percebeu que tinha acabado de ter um terrível pesadelo. Suspirou aliviado. Ao mirar os próprios pés no final da cama, viu um par de olhos vermelhos o observando. Teria se espantado, se não tivesse percebido rápido a quem pertencia.


— Droga, Ukyi! — exclamou frustrado.


Ao olhar no relógio de led no criado-mudo ao lado, viu que eram duas e duas da madrugada. Ainda estava de uniforme, dormira sem perceber quando se deitara para refletir depois de ler a carta de Lana.


— O que está fazendo aqui a essas horas?


— Apenas lhe observando. Senti uma certa instabilidade em tua energia, aconteceu algo?


— Não, só que…


De repente, notou gemidos abafados vindo do lado de fora. Se aproximou da janela para olhar discreto e observou dois zumbis-sobrenaturais que vagavam lá, ao meio da rua, aparentemente sem propósito algum.


Tranquilo por saber que eles não seriam nenhum problema, ainda mais se não o vissem, Saketsu apenas arrastou a cortina e voltou a se sentar na cama. Não tinha a mínima vontade de voltar a dormir, o pesadelo que tivera há pouco fora desconfortável demais, o suficiente para fazê-lo perder totalmente o sono.


Teria que arrumar algo para fazer até pelo menos dar a hora de ir à escola.


Desceu até a cozinha, pegou três sanduíches da manhã passada e um copo de refrigerante e foi para a sala, onde ligou a TV.


Por sorte, um anime havia acabado de começar, ainda estava no primeiro episódio, o que era muito bom, um acaso perfeito. Sentou-se confortável no sofá para assistir.


Nos primeiros minutos ainda se mantivera um pouco para baixo, mas não demorou tanto para que toda a sensação ruim fosse embora. Tinha se esquecido do quão bom era se sentar no seu sofá e maratonar um anime. Isso antes era rotina, até que chegou aquele fatídico primeiro dia de aula de poucos dias atrás, e assim tudo mudou…


Enfim, o dia logo amanheceu, e a madrugada havia sido uma maravilha. Eram sete e sete quando Saketsu, depois de ter tomado um banho, se arrumado e descido até ali novamente, reparou no horário no canto da tela da TV.


As horas passadas pareciam ter sido uma verdadeira terapia, Saketsu estava mais leve e relaxado, ele se sentou ao lado de sua mochila, apenas esperando a hora para ir à escola.


Só que não demorou e, enquanto assistia um programa aleatório de culinária, um desconforto bateu, como se algo estivesse errado — e de fato estava.


A ausência de Lana havia deixado um grande vazio na casa. Já havia se acostumado a estar na presença dela em todas as manhãs, acordar no mesmo quarto que ela, comer torrada com geleia que tinha um gosto especial quando feito pelas mãos dela. Ela sempre fora muito gentil e sempre com um sorriso aconchegante, e agora ela havia deixado um enorme buraco na casa.


Enquanto ainda tentava compreender a razão que a levou a ir embora, um plantão noticiário surgiu, chamando a atenção.


A jornalista confirmava que o número de vítimas do coma já havia atingido o teto de 30% da população do país, e que várias delas haviam desaparecido sem deixar rastro algum, ainda não existindo evidências concretas que explicassem o que estava acontecendo; tudo com o mesmo ar de terror de sempre.


Mesmo que ainda existisse bastante dúvidas em Saketsu, ele até sabia bastante se comparado à imprensa, sabia que os desaparecidos haviam se transformado em zumbis-sobrenaturais e a maioria morrido, algumas por suas próprias mãos, sabia também que Dracarys tinha alguma coisa a ver com isso; nunca se esquecera do dia em que o vira pela primeira vez, no meio daquela quantidade impressionante de zumbis, e, para estranhar mais ainda, desde aquele dia eles não perturbaram mais.


De qualquer forma, Saketsu sentia que o que sabia não passava da ponta de um imenso iceberg de um mundo sobrenatural que desconhecia e mal podia imaginar.


***


Quando Saketsu chegou na escola e foi para a sala de aula, a primeira coisa que fez foi olhar para a carteira de Lana, que novamente estava vazia.


— Bora, Sake — apressou Tales que chegava atrás, dando leves empurrões no amigo que estava parado à porta com uma cara preocupada.


Já em seus lugares, Saketsu contou tudo para Tales sobre o que havia acontecido no dia anterior, incluindo o beijo entre Aine e ele.


— Não acredito! Seu primeiro beijo foi com a Aine?! — Tales mal conseguiu conter a surpresa.


— Xiu, cara! — Saketsu tentou silenciá-lo. — Sim, foi com ela... — E não se sentia nem um pouco agradável em dizer isso.


— Mas, e Lana?


— Eu já disse: eu e ela não passávamos de simples amigos. O que nos fez ficarmos juntos foi culpa desse negócio estranho que andou acontecendo…


— Foi mal, é que pensei que vocês realmente estavam juntos — desculpou Tales, parecendo meio constrangido. — Parecia que vocês se gostavam muito. Você não acha que, talvez, ela tenha visto você e Aine se beijando?


— Eu pensei nisso também, afinal foi a única coisa que daria motivos para ela se magoar comigo. Mas não foi culpa minha…


Neste momento, Saketsu olhou em direção à porta bem no instante em que Aine entrava. Corada, ela deu um leve sorriso para ele e seguiu para seu respectivo lugar da sala.


Saketsu desviou o olhar, demonstrando incômodo. Não sabia como resolveria a situação. Embora a culpa tenha sido de Aine, não conseguia odiá-la, ela parecia ser uma boa garota — e linda por sinal —, que fez aquilo para demonstrar seus sentimentos. Uma pessoa demonstrar seus sentimentos e agir por quem ela gosta é errado? Não sabia responder, era complicado.


Quando mal percebeu, acabou olhando para a próxima pessoa que entrou na sala, e, para seu espanto, era Lana, mas esse não era o motivo pelos seus olhos terem se arregalado de negativa surpresa, e sim por Dracarys estar bem próximo a ela. Eles estavam de mãos dadas, estavam juntos!


Os murmúrios, especialmente das garotas, começaram a correr à solta pela sala enquanto Lana e Dracarys já haviam se separado e seguiam para seus lugares.


Lana estava com Dracarys? Desde quando? Por quê? O pessoal não acreditava, ainda mais Saketsu, que começou a sentir algo estranho em seu corpo, um calor frio, um aperto, uma sensação certamente desconfortável.


Não queria acreditar no que vira... Talvez tenha entendido errado, tinha que ser! Mas por que da maldita coincidência de chegarem ao mesmo tempo e encostarem acidentalmente as mãos?


No entanto, a dúvida foi esclarecida pela expressão provocativa e maliciosa de Dracarys do outro lado da sala, provando que aquilo não tinha sido só impressão.


Saketsu sentiu uma vontade imensa de partir para cima dele, mas se segurou graças a Tales, que disse:


— Calma, Saketsu, não tem por que dar atenção a ele. Lana nunca faria isso…


E Saketsu percebeu que também achava isso. Ele contara tudo para Lana, ela sabia quem Dracarys era de verdade. Se ela tivesse o mínimo de noção, não iria chegar nem perto dele!


Mas essa ideia se quebrou no momento em que olhou para ela. Lana estava sentada em seu lugar, em uma postura rígida e os olhos fixos para a frente, aguardando a aula. Havia algo muito diferente nela, transparecia uma estranha e intensa frieza, que dava impressão de ser até outra pessoa.


Passados alguns instantes, o professor Noah chegou na sala, cumprimentando e em seguida anunciando que teria uma tarefa em dupla, fazendo com que os alunos logo se organizassem arrastando suas mesas para juntar com seus parceiros.


Saketsu não pensou duas vezes para ir até Lana, que permanecia parada em seu lugar, como se não desse a mínima para ao redor.


— Ei, Lana, quer fazer a tarefa comigo? — perguntou quando parou diante dela. Ela o ignorou completamente.


— Lana?


— O que você quer, Saketsu? — perguntou friamente, sem nem olhá-lo. — Achei que eu tivesse deixado claro que não é para você sequer falar comigo.


— Mas... — Saketsu desviou o olhar para o canto, chateado. Nunca pensara que passaria por isso novamente, Lana sempre o tratava assim antigamente, só que desta vez era diferente, bem mais incômodo.


— Saketsu, vamos fazer juntos? — Aine se aproximou do nada, se agarrando em um dos braços dele.


Sem chance de reagir, Saketsu foi levado por ela enquanto olhava para Lana, que não parecia esboçar uma mínima reação.


Quando se sentaram, Saketsu continuou observando as costas imóvel da garota amada, logo percebendo Dracarys se aproximar, puxar uma mesa próxima e sentar ao lado dela, em seguida levantando seu braço sobre o encosto da cadeira para abraçá-la.


Ele então se virou e olhou por cima do ombro direto para Saketsu, sorrindo com seu jeito provocativo de sempre, mas desta vez esbanjando uma carga de vitória, o que fez Saketsu se sentir completamente humilhado e revoltado, com uma frustração que se apoderava cada vez mais de si, não tendo nem palavras para descrever como era.


Aquilo teve que ser aturado a aula inteira, sem poder fazer nada, já que reconhecia a força superiora de Dracarys e Ukyi tinha dito em um breve papo que tiveram na madrugada que, houvesse o que houvesse, era melhor evitar confronto.


Depois da aula do professor Noah, Lana continuou se mantendo fria e distante no restante do dia, só interagindo com Dracarys, como se ele fosse o novo e único “amigo” dela, e os dois não se separaram um instante.


Na hora de embora, silencioso, atrás e distante, Saketsu seguia o mesmo caminho que eles, os vendo andar de mãos dadas. O desânimo era aparente no garoto, sendo facilmente perceptível para qualquer um.


Em frente ao portão da escola, via-os seguindo em direção ao pôr-do-sol. Seria até um enquadramento romântico caso um artista quisesse se inspirar para pintar, mas para Saketsu era um pesadelo, ainda mais quando teve que sustentar a visão de um beijo rápido que os dois se deram, seguido do falso sorriso carismático de Dracarys para ela.


Se não fosse por aquele longo e sedoso cabelo negro, aquelas presilhas que prendia sua franja para o lado esquerdo, aqueles olhos verde-esmeralda que sempre foram lindos e agora estavam totalmente sem emoção, Saketsu nem diria que era Lana.


Sua vontade era avançar entre eles e meter uma surra naquele maldito, mas do que isso iria adiantar? Iniciar uma briga que sabia que não tinha chance de ganhar?


— Não esquenta — Saketsu sentiu um toque repentino no ombro dado por Enzo, que parou em sua frente. — Esquece ela, bola pra frente, cara.


Saketsu respondeu com um balançar nada convencido de cabeça.


— Enzo, você vem? — chamou Inácia distante.


— Se precisar de alguma coisa, dê um toque. — Olhou fundo nos olhos de Saketsu. — Pode deixar. Valeu.


E assim se despediram, tendo Enzo seguido com Inácia por um caminho oposto.


Quando era noite, Saketsu já estava em casa, deitado no sofá apenas olhando reflexivo para o teto.


Sentia-se péssimo, mas não podia fazer nada, e essa era a parte ruim. A angústia em seu interior era tanta, que talvez se assemelhasse a ter um membro de seu corpo arrancado.


Sempre fora apaixonado por Lana, sempre tentara de tudo para se aproximar dela, sendo literalmente necessário uma intervenção sobrenatural para isso acontecer, e agora simplesmente a perdera por causa de um simples beijo que lhe fora roubado por uma garota que nem conhecia?


Será mesmo que Lana botaria tudo a perder só por isso?


No meio dessa onda de pensamento, ouviu a campainha tocar. Achou estranho, afinal quem seria? Ninguém nunca o chamara a esta hora. Quem sabe poderia ser Tales ou, talvez…


Uma pequena chama de esperança se acendeu dentro de si. Por alguma razão o barulho da campainha o fez ter um bom pressentimento, pois poderia ser Lana chamando para explicar que não estava bem e por isso agira daquela forma, afinal seria a única explicação, e no fundo era o que Saketsu desejava.


Após levantar às pressas, abrir a porta e ver quem era, porém, sentiu como se seu pouquinho de ânimo tivesse ido para o buraco.